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Capítulo
III
Mais
tarde...
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Tia, o que há com você, você ta louca? Você não
conhece esse cara, não sabe quem é nem de onde veio e
mesmo assim deixou ele entrar. E se de repente ele for
um maluco, um fugitivo de algum hospício?
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Eu sei, Beatriz, você tem razão. Ele pode ser até
pior do que isso, pode ser um criminoso, o assassino que
matou aquela mulher outro dia, eu sei, mas acontece que
eu não tive chance de pensar duas vezes. Quando dei por
mim ele já estava aqui dentro e eu de mãos atadas como
estou até agora, sem forças para reverter essa situação.
Na verdade, eu não sei se fui a vítima ou a heroína
dessa estória. Sinto-me como se tivesse sido pega em
uma cilada e não me conformo, mas foi tudo tão rápido.
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Sabe, tia... Eu não sei, mas sinto que tem alguma coisa
que você ainda não me falou. O que é? Eu conheço você,
tem andado estranha e também nunca foi assim tão
vulnerável, tão fácil. Jamais você abriria a porta e
permitiria que um estranho entrasse aqui, ainda que
crivado de balas. Você não acreditaria em seus olhos e
então fecharia a porta. Então por que deixou que isso
acontecesse agora? Nunca acreditou na primeira impressão,
sempre pensou duas, três vezes antes de se decidir. De
uma vez por todas, tia, qual o problema?
_
Tudo bem, querida, você está certa. Tem mesmo uma
coisa que você precisa saber, mas é bom falarmos baixo
pra que ninguém ouça. Eu vi matarem aquela mulher na
semana passada. Eu assisti à cena toda sem cortes e
acho que sou a única testemunha ocular, mas comecei a não
ter mais sossego depois do que vi. Eu me sentia
apavorada sempre que lembrava. Isso até uns dois ou três
dias após a noite do crime. Então tive a idéia de ir
dar um depoimento na delegacia para tentar me tranqüilizar
e também fiz isso sem comunicar a ninguém, nem mesmo a
você.
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Quando? – Pergunta Beatriz, visivelmente surpresa.
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Fui hoje pela manhã. E agora esse rapaz aparece na
porta com a mão jorrando sangue e desmaia a meus pés
e...
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Achaque ele é o assassino daquela noite?
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Não sabe o quanto eu torço para que não seja, mas nem
torcendo eu consigo pensar noutra coisa. Dr. Leonardo
recomendou-me que não o deixasse pernoitar, que não
era seguro, mas...
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Mas o que, tia? Por favor, sem “mas”, o doutor tem
razão, assim que ele acordar você vai lá e pede que
ele vá embora. Meu pai! Eu não acredito que você viu
o assassinato... Esse cara pode ser, sim, o assassino.
É claro! Não existe mais bandidinho, hoje em dia são
todos muito estratégicos, tia.
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É, eu sei. Em casos como esse, aproximam-se da vítima
até se tornarem as pessoas menos prováveis de culpa,
até afastarem de si toda a suspeita, quando na verdade,
são responsáveis por uma série de crimes. Mas será
que o que esses criminosos esperam encontrar não é
justamente uma atitude repressiva como a que você
sugere que eu tome, Beatriz?
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Espera aí, tia, você não vai mandar ele embora?
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Não até que se apresente. E se ele não for o que
supomos que seja. Sim, porque não podemos julgar ninguém
assim sem provas.
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Tia, as pessoas normais não aparecem assim, desmaiando
nas portas das outras, não entram na vida de alguém
assim tão de repente. Se eu fosse você, ligaria pra
polícia, tia.
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Com licença – Diz o rapaz entrando no quarto onde
ambas conversam e as duas tomam um susto. Eu queria
agradecer a senhora, D. Marta, pelos cuidados, os
curativos.Eu só não sei da minha mochila.
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Espere, mas como sabe o meu nome? Não lembro de ter me
apresentado – Pergunta Marta com espanto.
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Bom, é que eu já fui morador deste edifício, num
apartamento pequeno lá no primeiro andar. Conheço
muitos moradores daqui, sei também que a senhora é
professora, não é? – Diz o rapaz com um leve
sorriso. É um rapaz aparentemente carismático, bonito,
olhos claros, quase verdes.
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Essa é minha sobrinha, Beatriz. Ela encontrou a sua
mochila aí em frente. Você deve ter deixado cair
quando desmaiou.
_
Que estranho! Você não a ter encontrado. – Diz
Beatriz – Eu a deixei na poltrona, ao lado do sofá
onde você estava deitado. É incrível você não a ter
visto.
Beatriz
ainda não se sentia bem com toda aquela situação. O
seu tom de voz era sério, duro, deixando transparecer
um suave receio. Olhava assustada para Júlio, enquanto
que ele a admirava com graça, com um sorriso encantado
preso em seu rosto. Porém, a vontade dela era que ele
desaparecesse, que fosse logo embora pa
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ra que,
sossegada, ela pudesse enfim comemorar o aniversário de
Marta.
_
Perdoe-me, eu realmente não percebi que a mochila
estava lá. Acordei desorientado e lembrei que estou na
casa de alguém que nem conheço, sabe? Eu não me sinto
a vontade na casa dos outros. – Diz Júlio, ruborizado
com a hostilidade de Beatriz.
_
Bom, - intercede Marta – Eu acho que o quarto da dona
da casa não é o melhor lugar para uma visita sentir-se
a vontade. Vamos para a sala?
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Claro! – Responde Júlio, ainda sem graça.
Na
sala...
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Como se feriu? – Pergunta Beatriz.
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Bom... Eu não sei ao certo... Não deu pra entender o
que aconteceu, ainda não lembro bem...
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Agora só falta ele dizer que ele perdeu, além da
mochila, a memória. – Diz Beatriz, pensando em voz
alta e irônica.
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Acontece que se tivesse perdido a memória eu não
saberia o meu nome, não lembraria de você ainda menina
correndo pelos corredores desse prédio, chegando da
escola com sua tia, saltando do táxi...
_
Então... –
Insiste Beatriz – O que foi que houve com você?
Tentou suicídio? Eu achei que hoje em dia não houvesse
pessoas tão estúpidas a ponto de tentar ocultar um
fato tão comum em nosso cotidiano, como o de estar em
depressão, tentar suicídio, cortar os pulsos... No
entanto, hoje, os argumentos dessas pessoas não
conseguiram convencer-me de que essa é a melhor maneira
para solucionar os problemas que temos e...
_
Chega, Beatriz! Chega! – Interfere Marta – Deixe que
ele diga o que lembra ou o que pode nos dizer a respeito
do incidente.
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O que lembra, - Diz Beatriz – como o que ele lembra se
o negócio só foi há algumas horas?
_
Beatriz! – Impera Marta meio zangada com o
comportamento da sobrinha.
O
telefone toca.
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Dá licença, vou ver quem é. – Beatriz levanta e vai
atender o telefone um tanto chateada.
_
Perdoe o comportamento dessa criança, Júlio, mas eu
também estou curiosa por saber o que aconteceu. Você não
acha que o suspense já foi o suficiente, que já está
na hora de contar quem fez isso, rapaz? Tentou mesmo se
suicidar?
_
Desculpe-me, mas cortar os pulsos, eu?! – E ri alto até
que repentinamente pára. – Não tentei me matar, não
cortei o meu pulso, não sou louco, fui atacado, fizeram
isso comigo bem aí em frente, no corredor do prédio.
Jamais tiraria a minha vida, não vou dar ao mundo o
prazer de me ver morto, ainda não.
_
Então?... – Insiste Marta.
_
Estou voltando do interior onde fiquei os últimos três
anos, onde mora a minha família. Quando fiquei
desempregado aqui, tive de voltar pra lá e saí do
apartamento dividido com uns amigos aqui em baixo, sabe?
Mas a vida lá também ficou difícil, meu pai morreu há
um ano e meio. Cigarro. A situação ficou preta e eu não
encontro o que procuro. Eu acho que Beatriz tem razão,
talvez eu tenha mesmo perdido a memória, a única coisa
que consigo lembrar é meu nome e mais nada. Não sei
quem sou. Enquanto morava aqui fazia tantos planos pro
futuro, tinha amigos, tinha lugares legais pra ir, mas
depois, me vejo um nada, sem nada. Cheguei hoje e
resolvi procurar
os amigos. Alguns já não encontrei, devem estar
morando noutro lugar, trabalhando ou até mesmo casados
e os que encontrei bateram a porta em minha cara. Igual
você fez da primeira vez que estiva batendo. Tratou-me
como se eu fosse um marginal. Bom, mas tudo bem. Você não
foi a primeira pessoa a me ignorar hoje mesmo. Então...
Eu vou indo. É claro que não vou mais abusar de sua
hospitalidade, deve estar querendo um pouco de sossego,
não é, professora?
_
Não, espere, Júlio! Você ainda não disse como se
feriu!
_
O quê? – Pergunta Júlio um tanto confuso, parecia não
lembrar do ferimento que tinha no pulso.
_
O corte. Como se feriu? Insiste Marta.
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Ah! Sim! O ferimento... Bom, eu achei que você pudesse
me dar alguma informação quanto ao paradeiro de alguns
de meus amigos, sim, porque alguns estudaram em sua
escola vários anos e aproveitaria pra pedir um pouco
d’água, tava morrendo de sede. Não imaginava nunca
que uma professora tão educada estivesse um humor
daqueles, dos diabos. Então, depois de ser praticamente
expulso lada sua porta, por você, - Marta ouve de cabeça
baixa – Até que um maluco esbarrou em mim. Ele vinha
correndo e caímos no chão. Antes que eu pudesse tirar
satisfação, ele me deu uma rasteira e me atirou no chão
outra vez e depois outra. Ele cobria o tempo todo o
rosto com o braço, talvez para que ninguém o
reconhecesse, mas por que eu não sei. Era muito ágil.
Tanto que, sem que eu pudesse me safar, sacou da roupa
um... Objeto cortante, não sei, e lanço em minha direção
várias vezes até que acertou-me a mão e percebendo
que me acertou tentou fugir. Então consegui pular em
cima, outra vez fomos pro chão e acredito que consegui
derrubar o objeto que ele tinha, uma navalha, uma
canivete, não sei ao certo. Ele socou minha barriga, me
atirou na parede e dessa vez fugiu.
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Um objeto cortante – Diz Marta, pensativa – Que
interessante! Mas você não tem certeza quanto a esse
objeto que lhe cortou?
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Não! Eu não sei, uma navalha, talvez. Um punhal, um
canivete.
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Uma faca. – Diz Beatriz que já estava de volta sem
que ninguém percebesse a sua presença sutil, então os
dois se viram para vê-la. Estava pálida, quase sem
cor, os olhos parados, meio arregalados e continua –
Essa estória que acabou de contar parece absurda mas,
se tem algum fundamento, essa arma era uma faca.
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Querida! – Exclama Marta, espantada com a expressão
assustada no rosto da sobrinha – O que aconteceu? Você
está pálida, Beatriz, quem era no telefone.
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Era D. Edite, a nossa vizinha. O Sr. Gomes acabou de ser
encontrado morto em seu apartamento com várias facadas
pelo corpo, boiando numa poça de sangue.
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Outra vez – Diz Marta apavorada – não pode ser,
outra morte aqui perto, dessa vez bem mais perto.
Facadas. Outro assassinato. Mas, por que o Gomes, meu
Deus?
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Não sei – Beatriz se aproxima da sua tia e, nervosa,
começa a chorar abraçada a ela.
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Mas eu sei – Lembra Marta – É claro! Como eu fui
idiota. O Sr. Gomes tinha algo a me dizer há umas horas
atrás. Ele veio aqui e tinha alguma coisa pra me dizer
e eu não lhe dei atenção, não quis ouvi-lo. Talvez
tenha sido esse o motivo da sua morte: saber demais.
Saber de alguma coisa que eu não sabia. Que burra eu
fui. Ele insistia tanto e eu o expulsei e agora ele está
morto... – Marte se desespera. – Ele veio aqui
minutos atrás, talvez segundos antes de você voltar, Júlio.
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A senhora acha, D. Marta, que... Bom, talvez tenha sido
o mesmo cara que me feriu no corredor o assassino? Eu
acho que foi ele sim, D. Marta, ele corria, cobria o
rosto... O que a Senhora acha? Pode ter sido o mesmo
cara?
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Ou você – Responde Beatriz – Com uma frieza ainda
maior- Que não deixa de ser suspeito, não para mim. Ou
você acha que alguém vai acreditar assim logo de cara
numa estória estúpida de encontrar um maluco no
corredor de um prédio dando facadas em quem
encontrasse, cobrindo o rosto com o braço. Hoje em dia,
meu caro, existem máscaras, ninguém se esconde usando
o braço. Mas isso a polícia vai investigar, ela já
está no local do crime.
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Você acha que eu sou o assassino, não é, Beatriz?
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Eu preciso ir até lá – Diz Marta levantando-se do
sofá. |