Círculo Literário Organizado Verso In Verso - Obra/Autor - Rinaldo Alves Lima - A Testemunha (Capítulo 3)

   
 

 

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Rinaldo Alves Lima

Capítulo III

Mais tarde...

_ Tia, o que há com você, você ta louca? Você não conhece esse cara, não sabe quem é nem de onde veio e mesmo assim deixou ele entrar. E se de repente ele for um maluco, um fugitivo de algum hospício?

_ Eu sei, Beatriz, você tem razão. Ele pode ser até pior do que isso, pode ser um criminoso, o assassino que matou aquela mulher outro dia, eu sei, mas acontece que eu não tive chance de pensar duas vezes. Quando dei por mim ele já estava aqui dentro e eu de mãos atadas como estou até agora, sem forças para reverter essa situação. Na verdade, eu não sei se fui a vítima ou a heroína dessa estória. Sinto-me como se tivesse sido pega em uma cilada e não me conformo, mas foi tudo tão rápido.

_ Sabe, tia... Eu não sei, mas sinto que tem alguma coisa que você ainda não me falou. O que é? Eu conheço você, tem andado estranha e também nunca foi assim tão vulnerável, tão fácil. Jamais você abriria a porta e permitiria que um estranho entrasse aqui, ainda que crivado de balas. Você não acreditaria em seus olhos e então fecharia a porta. Então por que deixou que isso acontecesse agora? Nunca acreditou na primeira impressão, sempre pensou duas, três vezes antes de se decidir. De uma vez por todas, tia, qual o problema?

_ Tudo bem, querida, você está certa. Tem mesmo uma coisa que você precisa saber, mas é bom falarmos baixo pra que ninguém ouça. Eu vi matarem aquela mulher na semana passada. Eu assisti à cena toda sem cortes e acho que sou a única testemunha ocular, mas comecei a não ter mais sossego depois do que vi. Eu me sentia apavorada sempre que lembrava. Isso até uns dois ou três dias após a noite do crime. Então tive a idéia de ir dar um depoimento na delegacia para tentar me tranqüilizar e também fiz isso sem comunicar a ninguém, nem mesmo a você.

_ Quando? – Pergunta Beatriz, visivelmente surpresa.

_ Fui hoje pela manhã. E agora esse rapaz aparece na porta com a mão jorrando sangue e desmaia a meus pés e...

_ Achaque ele é o assassino daquela noite?

_ Não sabe o quanto eu torço para que não seja, mas nem torcendo eu consigo pensar noutra coisa. Dr. Leonardo recomendou-me que não o deixasse pernoitar, que não era seguro, mas...

_ Mas o que, tia? Por favor, sem “mas”, o doutor tem razão, assim que ele acordar você vai lá e pede que ele vá embora. Meu pai! Eu não acredito que você viu o assassinato... Esse cara pode ser, sim, o assassino. É claro! Não existe mais bandidinho, hoje em dia são todos muito estratégicos, tia.

_ É, eu sei. Em casos como esse, aproximam-se da vítima até se tornarem as pessoas menos prováveis de culpa, até afastarem de si toda a suspeita, quando na verdade, são responsáveis por uma série de crimes. Mas será que o que esses criminosos esperam encontrar não é justamente uma atitude repressiva como a que você sugere que eu tome, Beatriz?

_ Espera aí, tia, você não vai mandar ele embora?

_ Não até que se apresente. E se ele não for o que supomos que seja. Sim, porque não podemos julgar ninguém assim sem provas.

_ Tia, as pessoas normais não aparecem assim, desmaiando nas portas das outras, não entram na vida de alguém assim tão de repente. Se eu fosse você, ligaria pra polícia, tia.

_ Com licença – Diz o rapaz entrando no quarto onde ambas conversam e as duas tomam um susto. Eu queria agradecer a senhora, D. Marta, pelos cuidados, os curativos.Eu só não sei da minha mochila.

_ Espere, mas como sabe o meu nome? Não lembro de ter me apresentado – Pergunta Marta com espanto.

_ Bom, é que eu já fui morador deste edifício, num apartamento pequeno lá no primeiro andar. Conheço muitos moradores daqui, sei também que a senhora é professora, não é? – Diz o rapaz com um leve sorriso. É um rapaz aparentemente carismático, bonito, olhos claros, quase verdes.

_ Essa é minha sobrinha, Beatriz. Ela encontrou a sua mochila aí em frente. Você deve ter deixado cair quando desmaiou.

_ Que estranho! Você não a ter encontrado. – Diz Beatriz – Eu a deixei na poltrona, ao lado do sofá onde você estava deitado. É incrível você não a ter visto.

            Beatriz ainda não se sentia bem com toda aquela situação. O seu tom de voz era sério, duro, deixando transparecer um suave receio. Olhava assustada para Júlio, enquanto que ele a admirava com graça, com um sorriso encantado preso em seu rosto. Porém, a vontade dela era que ele desaparecesse, que fosse logo embora pa

ra que, sossegada, ela pudesse enfim comemorar o aniversário de Marta.

_ Perdoe-me, eu realmente não percebi que a mochila estava lá. Acordei desorientado e lembrei que estou na casa de alguém que nem conheço, sabe? Eu não me sinto a vontade na casa dos outros. – Diz Júlio, ruborizado com a hostilidade de Beatriz.

_ Bom, - intercede Marta – Eu acho que o quarto da dona da casa não é o melhor lugar para uma visita sentir-se a vontade. Vamos para a sala?

_ Claro! – Responde Júlio, ainda sem graça.

            Na sala...

_ Como se feriu? – Pergunta Beatriz.

_ Bom... Eu não sei ao certo... Não deu pra entender o que aconteceu, ainda não lembro bem...

_ Agora só falta ele dizer que ele perdeu, além da mochila, a memória. – Diz Beatriz, pensando em voz alta e irônica.

_ Acontece que se tivesse perdido a memória eu não saberia o meu nome, não lembraria de você ainda menina correndo pelos corredores desse prédio, chegando da escola com sua tia, saltando do táxi...

_ Então...  – Insiste Beatriz – O que foi que houve com você? Tentou suicídio? Eu achei que hoje em dia não houvesse pessoas tão estúpidas a ponto de tentar ocultar um fato tão comum em nosso cotidiano, como o de estar em depressão, tentar suicídio, cortar os pulsos... No entanto, hoje, os argumentos dessas pessoas não conseguiram convencer-me de que essa é a melhor maneira para solucionar os problemas que temos e...

_ Chega, Beatriz! Chega! – Interfere Marta – Deixe que ele diga o que lembra ou o que pode nos dizer a respeito do incidente.

_ O que lembra, - Diz Beatriz – como o que ele lembra se o negócio só foi há algumas horas?

_ Beatriz! – Impera Marta meio zangada com o comportamento da sobrinha.

            O telefone toca.

_ Dá licença, vou ver quem é. – Beatriz levanta e vai atender o telefone um tanto chateada.

_ Perdoe o comportamento dessa criança, Júlio, mas eu também estou curiosa por saber o que aconteceu. Você não acha que o suspense já foi o suficiente, que já está na hora de contar quem fez isso, rapaz? Tentou mesmo se suicidar?

_ Desculpe-me, mas cortar os pulsos, eu?! – E ri alto até que repentinamente pára. – Não tentei me matar, não cortei o meu pulso, não sou louco, fui atacado, fizeram isso comigo bem aí em frente, no corredor do prédio. Jamais tiraria a minha vida, não vou dar ao mundo o prazer de me ver morto, ainda não.

_ Então?... – Insiste Marta.

_ Estou voltando do interior onde fiquei os últimos três anos, onde mora a minha família. Quando fiquei desempregado aqui, tive de voltar pra lá e saí do apartamento dividido com uns amigos aqui em baixo, sabe? Mas a vida lá também ficou difícil, meu pai morreu há um ano e meio. Cigarro. A situação ficou preta e eu não encontro o que procuro. Eu acho que Beatriz tem razão, talvez eu tenha mesmo perdido a memória, a única coisa que consigo lembrar é meu nome e mais nada. Não sei quem sou. Enquanto morava aqui fazia tantos planos pro futuro, tinha amigos, tinha lugares legais pra ir, mas depois, me vejo um nada, sem nada. Cheguei hoje e resolvi  procurar os amigos. Alguns já não encontrei, devem estar morando noutro lugar, trabalhando ou até mesmo casados e os que encontrei bateram a porta em minha cara. Igual você fez da primeira vez que estiva batendo. Tratou-me como se eu fosse um marginal. Bom, mas tudo bem. Você não foi a primeira pessoa a me ignorar hoje mesmo. Então... Eu vou indo. É claro que não vou mais abusar de sua hospitalidade, deve estar querendo um pouco de sossego, não é, professora?

_ Não, espere, Júlio! Você ainda não disse como se feriu!

_ O quê? – Pergunta Júlio um tanto confuso, parecia não lembrar do ferimento que tinha no pulso.

_ O corte. Como se feriu? Insiste Marta.

_ Ah! Sim! O ferimento... Bom, eu achei que você pudesse me dar alguma informação quanto ao paradeiro de alguns de meus amigos, sim, porque alguns estudaram em sua escola vários anos e aproveitaria pra pedir um pouco d’água, tava morrendo de sede. Não imaginava nunca que uma professora tão educada estivesse um humor daqueles, dos diabos. Então, depois de ser praticamente expulso lada sua porta, por você, - Marta ouve de cabeça baixa – Até que um maluco esbarrou em mim. Ele vinha correndo e caímos no chão. Antes que eu pudesse tirar satisfação, ele me deu uma rasteira e me atirou no chão outra vez e depois outra. Ele cobria o tempo todo o rosto com o braço, talvez para que ninguém o reconhecesse, mas por que eu não sei. Era muito ágil. Tanto que, sem que eu pudesse me safar, sacou da roupa um... Objeto cortante, não sei, e lanço em minha direção várias vezes até que acertou-me a mão e percebendo que me acertou tentou fugir. Então consegui pular em cima, outra vez fomos pro chão e acredito que consegui derrubar o objeto que ele tinha, uma navalha, uma canivete, não sei ao certo. Ele socou minha barriga, me atirou na parede e dessa vez fugiu.

_ Um objeto cortante – Diz Marta, pensativa – Que interessante! Mas você não tem certeza quanto a esse objeto que lhe cortou?

_ Não! Eu não sei, uma navalha, talvez. Um punhal, um canivete.

_ Uma faca. – Diz Beatriz que já estava de volta sem que ninguém percebesse a sua presença sutil, então os dois se viram para vê-la. Estava pálida, quase sem cor, os olhos parados, meio arregalados e continua – Essa estória que acabou de contar parece absurda mas, se tem algum fundamento, essa arma era uma faca.

_ Querida! – Exclama Marta, espantada com a expressão assustada no rosto da sobrinha – O que aconteceu? Você está pálida, Beatriz, quem era no telefone.

_ Era D. Edite, a nossa vizinha. O Sr. Gomes acabou de ser encontrado morto em seu apartamento com várias facadas pelo corpo, boiando numa poça de sangue.

_ Outra vez – Diz Marta apavorada – não pode ser, outra morte aqui perto, dessa vez bem mais perto. Facadas. Outro assassinato. Mas, por que o Gomes, meu Deus?

_ Não sei – Beatriz se aproxima da sua tia e, nervosa, começa a chorar abraçada a ela.

_ Mas eu sei – Lembra Marta – É claro! Como eu fui idiota. O Sr. Gomes tinha algo a me dizer há umas horas atrás. Ele veio aqui e tinha alguma coisa pra me dizer e eu não lhe dei atenção, não quis ouvi-lo. Talvez tenha sido esse o motivo da sua morte: saber demais. Saber de alguma coisa que eu não sabia. Que burra eu fui. Ele insistia tanto e eu o expulsei e agora ele está morto... – Marte se desespera. – Ele veio aqui minutos atrás, talvez segundos antes de você voltar, Júlio.

_ A senhora acha, D. Marta, que... Bom, talvez tenha sido o mesmo cara que me feriu no corredor o assassino? Eu acho que foi ele sim, D. Marta, ele corria, cobria o rosto... O que a Senhora acha? Pode ter sido o mesmo cara?

_ Ou você – Responde Beatriz – Com uma frieza ainda maior- Que não deixa de ser suspeito, não para mim. Ou você acha que alguém vai acreditar assim logo de cara numa estória estúpida de encontrar um maluco no corredor de um prédio dando facadas em quem encontrasse, cobrindo o rosto com o braço. Hoje em dia, meu caro, existem máscaras, ninguém se esconde usando o braço. Mas isso a polícia vai investigar, ela já está no local do crime.

_ Você acha que eu sou o assassino, não é, Beatriz?

_ Eu preciso ir até lá – Diz Marta levantando-se do sofá.

 

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