|
CAPÍTULO
II
Saindo
da delegacia, a professora voltou para o seu apartamento
por volta das onze da manhã e, chegando lá...
_Surpresa!
Feliz aniversário, tia Marta! Beatriz a recebe com um
lindo ramalhete e um cartão nas mãos. Não achou que eu fosse esquecer do seu dia, não é?
_Não...
Responde Marta, ainda surpresa. Claro que não, mas
tomei um susto, eu...
_Tia!
Interrompe Beatriz – Eu não acredito que você ainda
está desse jeito. Pensei que esse seu nervosismo, essa
sua ansiedade fossem passageiros. Já faz alguns dias
que te vejo tomando aquelas pílulas pra dormir, vive
com a cabeça longe. O que é que está acontecendo,
porque você não me fala? Beatriz mostra-se preocupada,
enquanto que Marta tenta disfarçar o que sente –
Olha, tia... Senta aqui comigo, – sentam-se no sofá
da sala – me conta. O que é que você tem? Está
assim desde aquela noite, não é? Desde o crime em que
o cadáver de mulher apareceu na calçada aqui em
frente, não é?
_
Não, Beatriz, imagina! Eu...
_
Tia! Não mente, eu sei que você está estranha, mas já
se passaram uns oito ou dez dias, o criminoso já deve
estar muito longe daqui, e além do mais você nem viu o
cadáver. Todos os vizinhos correram pra ver, eu também
fui olhar, mas você não, ficou aqui sozinha, calada.
Então? Por que ficou assim? Estou ficando preocupada.
_
Olha, Beatriz, eu... Eu não tenho nenhum problema –
tenta se explicar e acalmar a sobrinha – Não há nada
de errado comigo, querida, não precisa se preocupar. Se
tinha alguma coisa me deixando tensa, perturbada, agora
já não me incomoda. Já cuidei para que esse problema
fosse colocado nas mãos de pessoas mais indicadas para
se preocupar com ele.
_
Então, – Beatriz finge esquecer o assunto – tudo
bem. Vamos comemorar o seu aniversário, hoje o dia é
seu, aliás, é nosso. Passaremos a tarde juntas, vamos
ao shopping, ao cinema...
—
Não, Beatriz, obrigada, mas... Acho que prefiro ficar
em casa descansando, afinal hoje é sábado, não tenho
aulas para dar, vou repousar um pouco depois do almoço.
—
Ok, tia! Melhor, assim vou poder ir sozinha e escolher o
seu presente com calma.
—
Vai me deixar sozinha?! Pergunta Marta.
Beatriz
a olha confusa. Havia uma coisa estranha no rosto de sua
tia. Tentava ocultar a tensão que lhe afligia, porém,
sem sucesso.
—
Algum problema? Insiste Beatriz.
—
Não, claro que não.
—
Então, se está tudo bem com você, vou me
aprontar pra sair.
Mais
tarde...
—
Já almocei, estou saindo, tia. Descanse!
Por
mais que quisesse esconder, era evidente o quanto Marta
ainda estava assustada. Ela não havia contado à
sobrinha o que viu. Não falou absolutamente nada a
respeito do crime e também foi à delegacia sem
comunicar a ninguém unicamente por achar que ficaria
mais tranqüila após o depoimento, que seus problemas
terminariam lá. Porém, não foi o que aconteceu.
Agora, sozinha, a sensação de culpa é ainda maior por
saber que denunciou um assassino que pode estar em
qualquer lugar. Senta-se na sala e olhando em sua volta,
teme o vazio do ambiente. Está ansiosa, preferia ter saído
com Beatriz, mesmo cansada. Sente voltar o
pressentimento de que está novamente no lugar errado e
na hora errada. E a cada minuto que passa aumenta sua
tensão e a sensação de não estar sozinha lhe apavora
até que tem uma idéia talvez capaz de tranqüilizá-la.
Levanta-se, pega o telefone e disca
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
.
—
Alô! – Fala ao telefone – É da delegacia de polícia?...
Gostaria... Ah! Boa tarde... Gostaria de falar com o
delegado, Dr. Fagundes... Ah! Está em horário de almoço?...
Tudo bem, obrigado... Não, espere, por favor!...
Ricardo, o escrivão, ele... Se encontra? Ótimo.
Obrigado, eu espero. – Ela espera ao telefone enquanto
passeia os olhos pela casa, um tanto nervosa. – Alô!
Lembra-se de mim, Ricardo? Sou a Professora Marta,
estive aí hoje pela manhã... Sim, vou bem, obrigado...
Quer dizer, não tão bem, sabe? Acontece que eu
realmente achei que me sentiria mais calma depois de meu
depoimento, mas o fato, Senhor escrivão, é que até
agora eu fui a única testemunha e, por mais que eu
tente e queira, não consigo sentir-me segura. Sinto-me
vulnerável e desprotegida... E o crime aconteceu aqui
em frente, e... E se ele me viu? O que vou fazer, meu
Deus! – Ainda ao telefone, Marta se desespera –
Sim!... Eu sei que devo me acalmar, continuar em
sigilo... Não!... É claro que confio no trabalho de
vocês... Aliás, estou mentindo, não confio no
trabalho de nenhum policial, tenho muito medo que esse
criminoso me descubra, me mate sem que vocês movam
sequer um dedo pra me proteger, e já estou muito
arrependida de ter ido aí e, na verdade, eu só liguei
pra deixar o meu endereço pra o caso de algum de vocês
precisar... Escrivão? Ainda está aí?... Ah, bom...
Então, anote: Rua das Palmeiras, Edifício Olavo Bilac,
3° Andar, 102, Centro, anotou?... Bom, então recomendações
ao Doutor Fagundes.
E
desliga.
Marta
estava apreensiva, insegura e a cada minuto desejava que
Beatriz voltasse. Era capaz de pressentir o perigo que
corria estando sozinha no apartamento e isso a
apavorava. Volta para o sofá e, de repente, a campainha
toca. Toma um susto. Emudece. Fica imóvel, sentada,
esperando – Um segundo toque – E dessa vez, se
encoraja, levanta, mas o medo trava-lhe as pernas.
Caminha lentamente em direção à porta. Hesita,
inspira forte e abre. É um rapaz branco, forte, bonito,
aparentando vinte e cinco anos. Um estranho que ela
nunca vira antes. Fica perplexa diante dele, mal
consegue falar de tanto medo. Lembra-se que está
sozinha em casa e...
—
Quem é você? – Pergunta com a voz trêmula – O que
quer aqui, o que quer de mim?
Ele
a olha inexpressivo, bem em seus olhos e, antes que
pudesse respondê-la, ela grita:
—
Vá embora! Saia daqui! – Ele vai ficando confuso –
Saia antes que eu chame a polícia! – E bate a porta
com raiva.
Ao
fechar a porta, o ato de coragem parece tê-la
enfraquecido, pois ela permanece encostada à porta do
lado de dentro e, assustada, respira ofegante, quase sem
ar. Torce para que isso a tenha livrado do perigo, mas
outra vez a campainha toca.
—
Meu Deus, não pode ser! Beatriz tem as chaves, então não
é ela. Oh, não! É ele. É o assassino. Mas... Como
ele me encontrou, como veio parar aqui, como pode ter me
visto naquela janela? Já sei! – Pensa Marta num
sobressalto, porém sem desencostar da porta – Vou
chamar a polícia, o Delegado, o Escrivão, os agentes,
aquela delegacia toda terá que me proteger. Maldita a
hora em que fui depor. Mas como eu iria adivinhar que o
assassino bateria em minha porta? Como, meu Deus, como?
– Chora em pânico.
Marta
desencosta da porta e vai, novamente em direção ao
telefone. Dessa vez a campainha não toca e sim batem à
porta. Batem com força, uma vez, duas e repetidas
vezes. – Ela se desespera ainda mais – Não parece
ser alguém que conheça ou que, pelo menos, freqüente
o seu apartamento.
—
Socorro! – Sussurra – Socorro! – Grita, desiste do
telefone e, a cada batida na porta sente que a qualquer
momento quem quer que seja irá entrar – Meu Deus! O
que eu faço agora? E Beatriz, por que não chega? E por
que isso está acontecendo comigo – Se abaixa, senta
no chão por traz da porta e chora – Ele sabe que
estou aqui, por isso não pára de bater. Não posso
chamar a polícia. Se for um simples vendedor de porta
em porta, ou algum amigo de Beatriz, lá da Faculdade
que veio aqui estudar? Mas também pode ser o assassino
que veio aqui para me matar, que sabe que estou
sozinha... Ah, meu Deus, me ajude – Enquanto ela
chora, as batidas na porta vão ficando menos freqüentes
– Só me resta fazer uma coisa – Ela prende o choro
e enxuga o rosto – Vou acabar logo com isso – E
dessa vez, batem na porta ainda com mais força do que
antes, a assustando – Vou abrir e ficar quieta,
calada, olhando e esperando que se apresente, eu não o
conheço, irá se apresentar, ele tem que dizer quem é.
Deus me ajude! Respira fundo – Se hoje é o dia de
minha morte... Que eu a encare de cabeça erguida. Que
eu... – Segura a maçaneta da porta - ... A olhe...
– e num único impulso - ... Nos olhos! – Abre.
Não
há mais ninguém no corredor, o rapaz havia
desaparecido. O corredor vazio surpreende Marta, que a
princípio não acreditou no que via, pois instantes
antes de abrir a porta sentia a forte presença de alguém
do lado de fora. E ainda tinha a estranha sensação de
não estar só. Até que, uma mão pesada de homem pousa
em seus ombros.
—
Não! – Grita apavorada – Socorro!
—
Espere, D. Marta! Sou eu! - Diz um senhor
aparentando uns cinqüenta anos.
—
Ah! Sr. Gomes, que bom que é o senhor. Deu-me um
susto.
—
Eu percebi – Comenta o vizinho, o Sr. Gomes,
sorrindo – Mas... Algum problema, Professora?
—
Não!... Bom... Sim!... Quer dizer, não! Ah! Não
há nenhum problema, obrigado por se preocupar.
—
Mas, a senhora... – Insiste o vizinho.
—
Sim, eu sei que gritei, mas eu já disse: o
Senhor me deu um susto, só isso. Estou com muita dor de
cabeça e, por favor, deixe-me entrar, sim?
—
Bom, é que eu vim...
—
Por favor, Sr. Gomes. Olhe, eu não posso
conversar agora. Seja lá o que veio fazer, faça outra
hora. Estou péssima hoje! Com licença. – Marta entra
e fecha a porta. – Onde ele estará? – Pergunta pra
si mesma a respeito do suposto assassino, confusa e
ainda assustada – Terá ele fugido ou terá vindo
apenas se certificar de que é aqui que moro? Espero que
tenha sido mesmo um vendedor e que tenha desistido. O
pior é que nem prestei atenção da primeira vez, se
ele trazia algo nas mãos.
Instantes
depois a campainha toca de novo. Marta volta da cozinha,
onde foi beber um pouco de água.
—
Meu Deus – Marta perde a paciência - O que será que
o Sr. Gomes quer comigo? – E, quando abre a porta –
Ah! – Grita. Fica paralisada olhando o homem que
voltou à sua porta. – O que veio fazer aqui? Quem é
você e... O que quer aqui? – Ele a encara com os
olhos parados, a face séria e fria. Ele apenas a olhava
e então, outra vez ela se desespera – Responda! Ou
dessa vez chamo a polícia! O que quer de mim?
—
Ajuda! Eu quero ajuda... – Responde com a voz
sufocada, parecia sentir dor – Socorro! Me ajude, por
favor, me ajude.
Ele
tira a mão direita do bolso da jaqueta. Tem um corte na
atura dos pulsos e o sangue começa a pingar pelo
corredor do prédio. Ele geme e tenta frear a sangue com
a outra mão. Vendo isso, Marta começa a gritar pedindo
socorro enquanto ele parece perder os sentidos e, então,
cai aos pés dela, sujando-lhe a roupa de sangue e o chão
do apartamento.
—
Socorro! – Ela grita desesperada. - Por favor!...
Senhor Gomes!... Socorro! Alguém me ajude!
Ela
fica no chão segurando o rapaz desmaiado em seus braços
com o pulso sangrando. Segurava forte o ferimento na
tentativa de que ele não perdesse tanto sangue. Marta
estava completamente em pânico, aflita demais para
pensar em outra solução.
Algum
tempo depois...
—
Muito obrigada, Dr. Leonardo. Ele vai precisar de alguma
assistência hospitalar? Pergunta Marta ao seu vizinho e
médico particular, o qual chamou para socorrer o rapaz.
—
Não, Marta, ele só precisará repousar um pouco, diz o
médico. O ferimento foi superficial, mas por pouco não
atingiu artérias fatais. Pela quantidade de sangue que
perdeu não terá forças pra levantar e andar agora,
mas... – Dr. Leonardo toma o braço de Marta e ambos
se afastam um pouco do ferido, que descansa no sofá da
sala. – Esse indivíduo é um estranho, não o
conhece, não pode deixá-lo ficar aqui de jeito nenhum,
e muito menos agora com essa estória de assassinato
aqui no bairro. Trate de telefonar pra o hospital e
pedir que enviem uma ambulância e ele poderá continuar
repousando no hospital, depois seguirá seu destino. A
sua parte, Marta, você já fez: providenciou os
primeiros socorros.
—
É. O senhor tem razão, Doutor. O que seria de mim sem
o número do seu telefone na bolsa. Muito obrigada. –
E o médico sai.
Marta
fica a sós com o estranho e, olhando para ele, espera
alguma reação de sua parte com medo, mas ele dorme
quieto. Ela vê o telefone e, imediatamente lembra-se do
conselho do médico. Então, subitamente tem uma idéia
completamente fora do comum. Ela vê surgir de repente
uma possibilidade de solucionar, de maneira diferente,
os dois mistérios que a perturbam: quem é aquele rapaz
e quem é o assassino. – Será que são a mesma
pessoa? - Pensa. Sendo assim, Marta desiste de ligar
para o hospital.
|