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Capítulo
I
_ Pois muito bem,
D. Marta, tenha a bondade de dar início ao seu
depoimento. Conte-nos tudo o que viu naquela noite.
Queira começar, por favor!
_ Eu posso? -
perguntou Marta, hesitante.
_ Sim, por
favor... - O delegado tinha pressa em ouvi-la, mas
compreendia o seu constrangimento diante dos demais
agentes de polícia.
Marta parecia
estar nervosa, acredito até que, por alguns instantes,
sentiu-se decidida a desistir do depoimento e sair da
delegacia, mas talvez o peso da responsabilidade de
poder estar, de algum modo, ajudando a solucionar um
misterioso caso de polícia encorajou-a de maneira que
não se manifestou contrária à pressão do interrogatório.
Percebendo o nervosismo da testemunha, o delegado
solicitou que os outros agentes se retirassem da sala,
permanecendo apenas Marta - a testemunha -, o escrivão e
o próprio Dr. Fagundes, que trancou a porta da sala,
para evitar possíveis interrupções, e em seguida
voltou-se para Marta, que estava sentada de costas para
a mesa do escrivão, puxou uma cadeira e, sentando-se
diante dela, olhou-a nos olhos e viu que estava mais
calma.
_ Bom, acho que
agora já podemos começar - o delegado olhou para o
escrivão, que logo fez um sinal de que estava pronto
para registrar cada palavra que a testemunha falasse.
_ É, acho que
agora sim - disse-lhe Marta mais confiante.
_ Bom, segundo
eu soube a Senhora é... Professora! Estou certo? -
perguntou o delegado iniciando o interrogatório.
_ Sim! Leciono
há vinte anos nesta cidade. Nasci aqui e comecei a
trabalhar aos vinte e três anos como professora de
História.
_ Mora sozinha?
É casada? Tem filhos?...
_ Não, delegado.
Não moro sozinha, já não estou mais casada e não tive
filhos. Moro com minha sobrinha, Beatriz - por um
instante, Marta mostrou-se impaciente - Perdoe-me,
Delegado - disse ela quebrando o raciocínio do Dr.
Fagundes. - Prefiro evitar que tenha tanto trabalho
comigo, fazendo perguntas pequenas, de respostas curtas.
Eu sei que não vim aqui pra isso. Eu vim lhes relatar o
que vi, um crime que aconteceu bem diante dos meus
olhos. Sei o quanto o meu relatório é importante para o
trabalho de investigação que vocês estão fazendo e,
portanto, eu gostaria de nos poupar de uma maçante
sessão de perguntas e respostas, e contar-lhes tudo
desde o início, quero dizer, tudo o que eu pude ver.
_ Está bem,
Professora Marta! Então... O que fazia e onde estava na
noite do crime?
_ Muita atenção
agora, senhores, - anuncia Marta - desculpem-me se
alguma ou outra coisa não for bem esclarecida, pois o
desespero e o pânico que tomam nosso corpo quando nos
deparamos com uma cena destas, tanto nos encorajam, como
também nos cegam e acabam tomando conta de nossos
sentidos. Por isso, eu temo ocultar sem querer algum
detalhe. Mas... Tudo bem, vamos lá... Deixa-me ver...
Por onde eu começo... - e num sobressalto - Ah! Claro!
Eu não lembro bem o que eu sentia aquela noite, só sei
que não conseguia dormir, nem sequer cochilar e já
passavam das onze da noite. Minha sobrinha, Beatriz, já
havia chegado da Faculdade. Conversamos um pouco, depois
ela foi para o quarto e trancou-se lá. Tentei ler alguma
coisa, um livro ou uma revista, mas não consegui sentir
sono. Resolvi pegar um pouco de chá na cozinha e, então,
quando voltei, fui até a janela fechar as cortinas,
porém acreditem se quiserem, senti a estranha sensação
de que devia olhar lá fora, de que algo acontecia lá em
baixo. O meu apartamento fica no terceiro andar do
edifício e essa janela tem uma vista perfeita de todo o
quarteirão.
_ Sim, mas... O
que aconteceu depois? O que a Senhora viu lá embaixo? -
interrogou o delegado apressando Marta.
_ Nada! -
respondeu Marta.
_ Nada?! - o
delegado fez uma expressão de espanto.
_ Isso mesmo,
Sr. delegado,"nada"! E foi isso o que me apavorou, o
nada. Um silêncio assombroso, um vazio morto, como eu
jamais tinha visto daquela janela. Era tudo muito
estranho, não havia ninguém na rua, nada além do
silêncio gritante e ensurdecedor, da música silenciosa
da noite, que soprava junto ao vento a brisa gelada do
medo. Permaneci diante da janela por algum tempo a
espera de um som que fosse, de um sussurro qualquer.
Lembro que tive a impressão de estar sozinha na Terra,
de que o resto da humanidade havia desaparecido do
planeta - desculpem o exagero, mas foi como me senti - o
silêncio era tal que eu conseguiria ouvir até mesmo o
som da respiração de um... Rato! Sim... De um rato ou de
qualquer outro animal que, porventura se esgueirasse
pelos cantos da sarjeta úmida. Era como se as asas da
morte pairassem sobre o mundo calando as criaturas num
sombrio silêncio.
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_ Continue,
Senhora. - disse o delegado.
_ Daí, eu senti
que todo aquele silêncio nada mais era senão um sinal de
que alguma coisa terrível estava prestes a acontecer.
"A calmaria que precede a tormenta" - D. Marta
pronunciou essa frase com um brilho diferente nos olhos,
parados no tempo - E eu estava absolutamente certa,
pois, de repente... Um grito! Um grito de terror, um
grito de mulher, de desespero, de medo, que atravessou a
noite como uma flecha rasgando o véu do silêncio.
Então... - Marta mudou o tom da voz, que até agora era
alto e apressado - eu olhei para a esquina e vi uma
mulher aparecer. Estava pálida, ferida e perdendo
sangue, caminhava com dificuldade, se arrastava pela
calçada segurando-se nos muros e gritando desesperada
por socorro. Olhava apavorada para trás a cada passo que
dava, como se estivesse fugindo de alguém ou de algo
muito assustador. Caminhou alguns metros adiante e
depois parou, talvez forçada pela dor do ferimento,
agachou-se gemendo. Foi quando de repente, vi a figura
de um homem se aproximando a passos largos da mulher.
Foi o que pensei: a presença da morte provocou o
silêncio. Era ela que estava lá à espreita de uma vítima
que fosse, de alguma criatura descuidada. Era um homem
vestido de negro, e era dele que a mulher fugia. Mas...
Por que, e quem era ele? Vendo que o homem vinha em sua
direção, a mulher se desesperou e, com muito esforço
levantou-se e novamente andava quase caindo e gritando,
gritando muito. Temo jamais conseguir esquecer aqueles
gritos, o medo e o desespero de quem olha bem nos olhos
da morte. O homem usava uma capa de couro negro, uma
touca escura e a escuridão da noite escondia o seu
rosto. Ele alcançou a mulher que, sem forças, tombou aos
seus pés implorando pra que não lhe tirasse a vida.
Gritava e gritava por socorro. Lembro que, nesse
instante, minhas pernas já não me obedeciam. Eu estava
paralisada diante da janela e, foi quando vi o homem
levantar brutalmente a mulher do chão e tirar da capa
uma faca. Ele forçou o corpo da mulher contra o dele e,
creio eu, que enfiou várias vezes a faca no abdômen da
vítima, que, de tanta dor, abraçou-se ao assassino num
último apelo. Era tarde demais. Ela já estava morta e o
seu sangue corria pela calçada. O homem largou o corpo
da mulher, em seguida, a faca e seguiu na mesma direção.
O cadáver pálido minava sangue pela sarjeta. O assassino
desapareceu na escuridão da rua tão repentinamente
quanto surgiu. - E isso é tudo o que eu lembro ter visto
naquela noite, delegado.
_ Bom, quer
dizer que a Senhora não viu... O seu rosto, não pode me
descrever o rosto dele?
_ Eu repito,
delegado: Eu só vi isso - Diz Marta, impaciente - Tudo o
que lhes contei foi justamente o que vi, sem tirar nem
por. Antes de começar a falar, achei que fosse esquecer
de algum detalhe, porém agora vejo que não esqueci de
nada. A cena toda passa como um filme diante dos meus
olhos sempre que lembro. Como já disse, temo não
esquecer aqueles gritos e todo o horror da cena.
_ E o que fez
depois do crime, professora? - pergunta o delegado,
curiosamente.
_ Ah! O senhor
quer saber se eu fui pedir ajuda ou se contei para
alguém, não é?
_ Bom...
_ Não, delegado.
Acredito que fiquei muito perplexa, ou atordoada demais
a ponto e pensar em alguma coisa desse tipo. Também não
lembro como fui pro meu quarto, a última coisa de que
lembro depois de tudo, é de ter caído sentada na cadeira
atrás de mim. Depois disso, não me recordo de mais nada,
só de ter acordado em meu quarto e que havia muita
correria na rua de manhã. Os vizinhos do prédio desciam
para ver o cadáver na calçada. Beatriz veio correndo me
contar o que acontecera e eu ouvia tudo calada, e
permaneci calada a respeito desse assunto. Não falei
nada pra ninguém, e continuaria sem falar se não fosse
pelo peso em minha consciência. Mas isso tudo é tolice,
eu sei que aqui existe um tal de arquivo de polícia,
onde mofam inúmeras estórias tão hediondas quanto esta,
e é pra lá que o meu depoimento vai, eu sei que é!
_ Bom,
Senhora,... Estamos muito gratos por sua ajuda que, com
certeza, não irá pro arquivo. A Senhora foi mesmo muito
útil - disse o delegado, irônico.
_ Não há de quê!
Marta se despede
e sai. O delegado a acompanha até a porta, enquanto o
escrivão finaliza o relatório.
_ Eu não
acredito - disse o delegado ao voltar pra mesa,
entediado.
_ Em quê? -
perguntou o escrivão.
_ Acontece, meu
caro amigo, que o mundo está perdendo uma grande
escritora. Uma excelente escritora de romances
policiais. Sim, essa mulher encenou o tempo todo,
palavreou demais e acabou contando a parte da estória
que todos nós já havíamos averiguado. Não nos trouxe
nenhuma novidade sobe o caso.
O escrivão ouvia
pensativo o desabafo aborrecido do delegado.
_ Eu não sei...
- comenta ainda pensativo o jovem escrivão Ricardo -
eu... Sinto que essa mulher ainda não acabou sua missão.
Não acho que ela seja uma simples testemunha, quer
dizer, eu acho que a participação dela nesse caso não
parou por aqui, sabe?...
_ Não entendo,
Ricardo, você acha que ela sabe quem é o assassino? Acha
que ela tem algo a ver com o crime, ou é mais um dos
seus pressentimentos?
_ Não! Bom... Eu
não sei, mas, eu sinto que ela ainda nos será útil e que
não é a última vez que a veremos nessa sala. É como se a
Professora Marta fosse uma peça chave, entende?
_ Você acha? -
perguntou o delegado.
_ É pura
intuição, não tenho certeza de nada. Se ela não tem nada
a ver com o caso, mas... Agora que nos procurou... Quem
sabe?
_ Acha que ela
corre perigo por ter nos contado o que viu?
_ Não é óbvio,
delegado? Até agora ela é a única testemunha de que
tivemos notícia. Se o assassino souber, certamente ela
estará correndo perigo. Aliás, esse criminoso nunca teve
um inimigo tão perigoso como a professora Marta Dourado.
_ Então,
Ricardo, você acha que...
_ Devemos ficar
de olho nela, somente isso, nada de alarmar. Deixemos
que o tempo passe naturalmente, é claro, preparados para
qualquer eventualidade. Isto é, se realmente quisermos
impedir que esse mistério tome novos rumos embaixo de
nossos narizes.
_ Muito bem,
então vamos lá! |