Círculo Literário Organizado Verso In Verso - Obra/Autor - Rinaldo Alves Lima - A Testemunha (Capítulo 1)

   
 

 

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Rinaldo Alves Lima

 Capítulo I

 

          _ Pois muito bem, D. Marta, tenha a bondade de dar início ao seu depoimento. Conte-nos tudo o que viu naquela noite. Queira começar, por favor!

            _ Eu posso? - perguntou  Marta, hesitante.

            _ Sim, por favor... - O delegado tinha pressa em ouvi-la, mas compreendia o seu constrangimento diante dos demais agentes de polícia.

             Marta parecia estar nervosa, acredito até que, por alguns instantes, sentiu-se decidida a desistir do depoimento e sair da delegacia, mas talvez o peso da responsabilidade de poder estar, de algum modo, ajudando a solucionar um misterioso caso de polícia encorajou-a de maneira que não se manifestou contrária à pressão do interrogatório. Percebendo o nervosismo da testemunha, o delegado solicitou que os outros agentes se retirassem da sala, permanecendo apenas Marta - a testemunha -, o escrivão e o próprio Dr. Fagundes, que trancou a porta da sala, para evitar possíveis interrupções, e em seguida voltou-se para Marta, que estava sentada de costas para a mesa do escrivão, puxou uma cadeira e, sentando-se diante dela, olhou-a nos olhos e viu que estava mais calma.

            _ Bom, acho que agora já podemos começar - o delegado olhou para o escrivão, que logo fez um sinal de que estava pronto para registrar cada palavra que a testemunha falasse.

            _ É, acho que agora sim - disse-lhe Marta mais confiante.

            _ Bom, segundo eu soube a Senhora é... Professora! Estou certo? - perguntou o delegado iniciando o interrogatório.

            _ Sim! Leciono há vinte anos nesta cidade. Nasci aqui e comecei a trabalhar aos vinte e três anos como professora de História.

            _ Mora sozinha? É casada? Tem filhos?...

            _ Não, delegado. Não moro sozinha, já não estou mais casada e não tive filhos. Moro com minha sobrinha, Beatriz - por um instante, Marta mostrou-se impaciente - Perdoe-me, Delegado - disse ela quebrando o raciocínio do Dr. Fagundes.  - Prefiro evitar que tenha tanto trabalho comigo, fazendo perguntas pequenas, de respostas curtas. Eu sei que não vim aqui pra isso. Eu vim lhes relatar o que vi, um crime que aconteceu bem diante dos meus olhos. Sei o quanto o meu relatório é importante para o trabalho de investigação que vocês estão fazendo e, portanto, eu gostaria de nos poupar de uma maçante sessão de perguntas e respostas, e contar-lhes tudo desde o início, quero dizer, tudo o que eu pude ver.

            _ Está bem, Professora Marta! Então... O que fazia e onde estava na noite do crime?

            _ Muita atenção agora, senhores, - anuncia Marta - desculpem-me se alguma ou outra coisa não for bem esclarecida, pois o desespero e o pânico que tomam nosso corpo quando nos deparamos com uma cena destas, tanto nos encorajam, como também nos cegam e acabam tomando conta de nossos sentidos. Por isso, eu temo ocultar sem querer algum detalhe. Mas... Tudo bem, vamos lá... Deixa-me ver... Por onde eu começo... - e num sobressalto - Ah! Claro! Eu não lembro bem o que eu sentia aquela noite, só sei que não conseguia dormir, nem sequer cochilar e já passavam das onze da noite. Minha sobrinha, Beatriz, já havia chegado da Faculdade. Conversamos um pouco, depois ela foi para o quarto e trancou-se lá. Tentei ler alguma coisa, um livro ou uma revista, mas não consegui sentir sono. Resolvi pegar um pouco de chá na cozinha e, então, quando voltei, fui até a janela fechar as cortinas, porém acreditem se quiserem, senti a estranha sensação de que devia olhar lá fora, de que algo acontecia lá em baixo. O meu apartamento fica no terceiro andar do edifício e essa janela tem uma vista perfeita de todo o quarteirão.

            _ Sim, mas... O que aconteceu depois? O que a Senhora viu lá embaixo? - interrogou o delegado apressando Marta.

            _ Nada! - respondeu Marta.

            _ Nada?! - o delegado fez uma expressão de espanto.

            _ Isso mesmo, Sr. delegado,"nada"! E foi isso o que me apavorou, o nada. Um silêncio assombroso, um vazio morto, como eu jamais tinha visto daquela janela. Era tudo muito estranho, não havia ninguém na rua, nada além do silêncio gritante e ensurdecedor, da música silenciosa da noite, que soprava junto ao vento a brisa gelada do medo. Permaneci diante da janela por algum tempo a espera de um som que fosse, de um sussurro qualquer. Lembro que tive a impressão de estar sozinha na Terra, de que o resto da humanidade havia desaparecido do planeta - desculpem o exagero, mas foi como me senti - o silêncio era tal que eu conseguiria ouvir até mesmo o som da respiração de um... Rato! Sim... De um rato ou de qualquer outro animal que, porventura se esgueirasse pelos cantos da sarjeta úmida. Era como se as asas da morte pairassem sobre o mundo calando as criaturas num sombrio silêncio.

            _ Continue, Senhora. - disse o delegado.

            _ Daí, eu senti que todo aquele silêncio nada mais era senão um sinal de que alguma coisa terrível estava prestes a acontecer. "A calmaria que precede a tormenta" - D. Marta pronunciou essa frase com um brilho diferente nos olhos, parados no tempo - E eu estava absolutamente certa, pois, de repente... Um grito! Um grito de terror, um grito de mulher, de desespero, de medo, que atravessou a noite como uma flecha rasgando o véu do silêncio. Então... - Marta mudou o tom da voz, que até agora era alto e apressado - eu olhei para a esquina e vi uma mulher aparecer. Estava pálida, ferida e perdendo sangue, caminhava com dificuldade, se arrastava pela calçada segurando-se nos muros e gritando desesperada por socorro. Olhava apavorada para trás a cada passo que dava, como se estivesse fugindo de alguém ou de algo muito assustador. Caminhou alguns metros adiante e depois parou, talvez forçada pela dor do ferimento, agachou-se gemendo. Foi quando de repente, vi a figura de um homem se aproximando a passos largos da mulher. Foi o que pensei: a presença da morte provocou o silêncio. Era ela que estava lá à espreita de uma vítima que fosse, de alguma criatura descuidada. Era um homem vestido de negro, e era dele que a mulher fugia. Mas... Por que, e quem era ele?  Vendo que o homem vinha em sua direção, a mulher se desesperou e, com muito esforço levantou-se e novamente andava quase caindo e gritando, gritando muito. Temo jamais conseguir esquecer aqueles gritos, o medo e o desespero de quem olha bem nos olhos da morte. O homem usava uma capa de couro negro, uma touca escura e a escuridão da noite escondia o seu rosto. Ele alcançou a mulher que, sem forças, tombou aos seus pés implorando pra que não lhe tirasse a vida. Gritava e gritava por socorro. Lembro que, nesse instante, minhas pernas já não me obedeciam. Eu estava paralisada diante da janela e, foi quando vi o homem levantar brutalmente a mulher do chão e tirar da capa uma faca. Ele forçou o corpo da mulher contra o dele e, creio eu, que enfiou várias vezes a faca no abdômen da vítima, que, de tanta dor, abraçou-se ao assassino num último apelo. Era tarde demais. Ela já estava morta e o seu sangue corria pela calçada. O homem largou o corpo da mulher, em seguida, a faca e seguiu na mesma direção. O cadáver pálido minava sangue pela sarjeta. O assassino desapareceu na escuridão da rua tão repentinamente quanto surgiu. - E isso é tudo o que eu lembro ter visto naquela noite, delegado.

            _ Bom, quer dizer que a Senhora não viu... O seu rosto, não pode me descrever o rosto dele?

            _ Eu repito, delegado: Eu só vi isso - Diz Marta, impaciente - Tudo o que lhes contei foi justamente o que vi, sem tirar nem por. Antes de começar a falar, achei que fosse esquecer de algum detalhe, porém agora vejo que não esqueci de nada. A cena toda passa como um filme diante dos meus olhos sempre que lembro. Como já disse, temo não esquecer aqueles gritos e todo o horror da cena.

            _ E o que fez depois do crime, professora? - pergunta o delegado, curiosamente.

            _ Ah! O senhor quer saber se eu fui pedir ajuda ou se contei para alguém, não é?

            _ Bom...

            _ Não, delegado. Acredito que fiquei muito perplexa, ou atordoada demais a ponto e pensar em alguma coisa desse tipo. Também não lembro como fui pro meu quarto, a última coisa de que lembro depois de tudo, é de ter caído sentada na cadeira atrás de mim. Depois disso, não me recordo de mais nada, só de ter acordado em meu quarto e que havia muita correria na rua de manhã. Os vizinhos do prédio desciam para ver o cadáver na calçada. Beatriz veio correndo me contar o que acontecera e eu ouvia tudo calada, e permaneci calada a respeito desse assunto. Não falei nada pra ninguém, e continuaria sem falar se não fosse pelo peso em minha consciência. Mas isso tudo é tolice, eu sei que aqui existe um tal de arquivo de polícia, onde mofam inúmeras estórias tão hediondas quanto esta, e é pra lá que o meu depoimento vai, eu sei que é!

            _ Bom, Senhora,... Estamos muito gratos por sua ajuda que, com certeza, não irá pro arquivo. A Senhora foi mesmo muito útil - disse o delegado, irônico.

            _ Não há de quê!

            Marta se despede e sai. O delegado a acompanha até a porta, enquanto o escrivão finaliza o relatório.

            _ Eu não acredito - disse o delegado ao voltar pra mesa, entediado.

            _ Em quê? - perguntou o escrivão.

            _ Acontece, meu caro amigo, que o mundo está perdendo uma grande escritora. Uma excelente escritora de romances policiais. Sim, essa mulher encenou o tempo todo, palavreou demais e acabou contando a parte da estória que todos nós já havíamos averiguado. Não nos trouxe nenhuma novidade sobe o caso.

            O escrivão ouvia pensativo o desabafo aborrecido do delegado.

            _ Eu não sei... - comenta ainda pensativo o jovem escrivão Ricardo - eu... Sinto que essa mulher ainda não acabou sua missão. Não acho que ela seja uma simples testemunha, quer dizer, eu acho que a participação dela nesse caso não parou por aqui, sabe?...

            _ Não entendo, Ricardo, você acha que ela sabe quem é o assassino? Acha que ela tem algo a ver com o crime, ou é mais um dos seus pressentimentos?

            _ Não! Bom... Eu não sei, mas, eu sinto que ela ainda nos será útil e que não é a última vez que a veremos nessa sala. É como se a Professora Marta fosse uma peça chave, entende?

            _ Você acha? - perguntou o delegado.

            _ É pura intuição, não tenho certeza de nada. Se ela não tem nada a ver com o caso, mas... Agora que nos procurou... Quem sabe?

            _ Acha que ela corre perigo por ter nos contado o que viu?

            _ Não é óbvio, delegado? Até agora ela é a única testemunha de que tivemos notícia. Se o assassino souber, certamente ela estará correndo perigo. Aliás, esse criminoso nunca teve um inimigo tão perigoso como a professora Marta Dourado.

            _ Então, Ricardo, você acha que...

            _ Devemos ficar de olho nela, somente isso, nada de alarmar. Deixemos que o tempo passe naturalmente, é claro, preparados para qualquer eventualidade. Isto é, se realmente quisermos impedir que esse mistério tome novos rumos embaixo de nossos narizes.

            _ Muito bem, então vamos lá!