Círculo Literário Organizado Verso In Verso - Obra/Autor - Lu Firmo - Madrugada Branca

   
 

 

Favoritos

Página Inicial

Fale Conosco

Principal

Quem Somos
Histórico
Manifesto
Estatuto

Membros

Mural de Fotos

Obra / Autor
Alameda Lopes
Cândido de Deus
Dayse Martins
Estela da Silva
Fraulein Dias

Lu Firmo

Luiza Luz

Penumbra Castanho

Rinaldo Alves Lima

Tássio Telles

Obra / Parceria

Estilo / Poesia
Concretista

Cunho Social
Erótica

Haicai

Macabra

Metalingüística

Modernista

Religiosa

Romântica

Saudosista

Sensual

Contos

Madrugada Branca

A Promessa

Relato

Crônica

Em Boa Companhia

Publicações

Livro de Visitas

Contatos

ATENÇÃO

Nenhuma parte das obras aqui contidas pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados, ou processo similar, em qualquer forma ou meios, seja eletrônico, mecânico, de fotocópia ou gravação, sem permissão do detentor do copyright.

 

Copyright© 09/2001 -  Círculo Literário Organizado Verso In Verso®.

Todos os direitos reservados.

 

Tácio Teles - Webmaster

BruTac Associates©

 

Lu Firmo

 

M A D R U G A D A    B R A N C A

Ninguém deveria morrer, ou nascer,

na hora da madrugada branca...

 

       E assim, ela tem vivido aventuras interessantíssimas. Pela primeira vez tem experimentado, realmente, o gosto da liberdade, a liberdade plena, a liberdade de até se impor não ter liberdade. E era tudo o que ela almejava.

       Então, depois de se ter imposto um período de reclusão (ela quis ficar reclusa), saiu da “toca”. Está sendo dessa forma,  não porque tenha planejado, mas porque tudo tem que acontecer na–tu-ral-men-te; pla-ci-da-men-te; pau-sa-da-men-te; sem pres-sa mes-mo.

       Então, ela resolveu ir passar o Natal na casa da amiga. Relutou, um pouco por preguiça, um pouco por medo do desconhecido, um pouco por não ser afeita a esse tipo de comemoração, mas foi. Como tem sido ao longo da sua vida, experimentou, foi por experiência, mais uma. E gostou. Sentiu-se bem. Tomou quase três garrafas de vinho, fumou, comeu, conversou à beça.

       Que bom! Casa de família. Não foi barzinho, mas poderia ter sido. Em qualquer lugar, com aquela gente, estaria bem. Papo gostoso, conversa jogada fora, conversa proveitosa, conversa de nada, conversa de tudo, fofoca, novidade, novas amizades, amizades antigas, velhos abraços, más notícias, alegrias, ah, sim, muita alegria! Ela a-do-rou. Não havia dança, não havia música, não havia muita luz, ou melhor, não era uma iluminação direta, era meia-luz. Tudo uma beleza. Ela decidiu sair da toca, então até a rua, sua velha conhecida, era novidade. Mas agora, mesmo conhecendo bem aquele caminho, aquelas ruas, agora  ela estava realmente só. Não era uma solidão circunstancial, era real. Estava satisfeita, plena de estar sozinha.

       Então ela foi. E gostou. Passou a noite toda conversando, até que... chegou a madrugada. Mas não era madrugada. Ou era a madrugada? Era. Antes do amanhecer total, antes de tudo ter se acordado, antes de o sol ter despertado, quando os pássaros estão timidamente soltando o seu trinado (os pássaros acordam-se antes do sol), antes de o sol, preguiçosamente, esticar os seus raios, antes de... Bem, é o que ela chama de madrugada branca. Para ela, há duas madrugadas antes da manhã: a madrugada preta e a madrugada branca.

       A madrugada preta é aquela que vai da meia-noite até, mais ou menos, às quatro e meia. É quando você tem a necessidade de dormir e tem permissão para dormir. Você vai dormir a qualquer hora da noite anterior, não muito cedo, se não, você será severamente criticado (– Mas já ?! Tão cedo ?!!!), e enfia-se na madrugada preta. É quando está escuro e, aparentemente, por convenção ou, quer saber mesmo ? É quando há mesmo a necessidade de dormir. A grandiosa natureza impõe. É isso. É natural que se durma durante a madrugada preta.

       A madrugada branca é quando o dia vai se acordar. É, pode ver, a vida fica todinha branca. Tudo fica branquinho... Fica tudo branco e molhadinho ! Você se sente o dono do mundo. Você jura que nunca mais vai pecar, porque é uma hora sagrada, é uma hora belíssima, pura, mágica. É o crepúsculo pelo avesso. Você só pensa em coisas boas. Você começa a amar o mundo, e é como se a gente estivesse experimentando um primeiro beijo. É isso, é misteriosa. A madrugada branca é assim: pomposa, respeitável, sedutora, sensual. Mas ninguém transa, na hora da madrugada branca, ou não deveria transar. Também não deve rezar, nem falar, nem pensar. Deve ficar somente extasiado, atoleimado, olhando-a. Ficar assim, estarrecido, deixar-se encantar pela beleza dela, para se permitir descobrir o que ela vai oferecer. Porque aos poucos, ela dá lugar à aurora. É uma passagem encantadora. É um parto que a natureza experimenta diariamente, de forma disciplinada,

mas não por obrigação. Por “natureza”, com “naturalidade”, porque sabe que é assim, porque deve repetir (?)... Imagina! Nunca repete! Toda vez é um espetáculo diferente. Nós, pobres mortais, é que vivemos repetindo! Nós é que somos repetitivos! A natureza, nem quando produz gêmeos!... Pois é. A natureza completa mais um ciclo, e o faz com singularidade e ao mesmo tempo, com galhardia. É uma apoteose!

       Na madrugada branca, permitem que você durma mais um pouco. Mas só mais um pouco, porque se não, você será duramente criticado (– Onde já se viu dormir tanto?!). Aliás, para muitos moralistas ou, sabe-se lá que tipo de gente mais louca! Para essa gente, dormir é, paradoxalmente, um pecado e um anseio. Talvez seja porque o anseio pareça encerrar em si um pecado.

       E foi na hora da madrugada branca que ela voltou para casa. Feliz, com a consciência tranqüila, cheia de esperanças, louca por chegar a casa e louca por ficar partilhando aquele momento com a natureza. Mas voltou para casa porque logo, logo, a realidade estaria diante dela, servindo-lhe o café. Mas era feriado, era o dia do Natal, estavam todos dormindo aquele sono permitido e somente ela estava acordada, dirigindo o carro. Poderia voltar sem pressa, com pressa, porque – ai! –  já, já, a aurora chegaria. Poderia ter parado o carro no meio da rua, que ninguém ia ver. Foi ótimo!

       Aí, ela viu uma pá de coisas. Não viu, não tinha o que ver, dentro daquela imensa beleza com tanta coisa para ver. Aí, ela viu um cretino estúpido passar, não sabe onde, numa calçada. Era a primeira pessoa no mundo que se acordara. Ela pensou que era um cretino estúpido. Aí, ela sentiu dó do cretino estúpido. Tentou achar que era um trabalhador, mas preferiu achar que não era um trabalhador, que era um cretino estúpido, porque era feriado, porque era o dia do Natal. Como é que alguém vai trabalhar nesse dia? Nem era um jornaleiro!... Tentou ver se era um jornaleiro mas, aquela criatura que ela achou também que era um cretino estúpido de chapéu, aquela figura, violentando a madrugada branca, havia sumido. Não o viu mais, nem quis ver. Porque ele era um cretino muito estúpido de chapéu que quase estragou a madrugada branca. Porque também, é gozado. A madrugada branca é muito delicada, muito tênue, mas não é frágil. É sen-sí-vel, e qualquer sinal mais brusco da hora seguinte pode estragá-la e aí, ela só vai voltar vinte e quatro horas depois, entendeu? E – quem sabe? –  você só vai poder presenciar outra madrugada branca muitas vinte e quatro horas depois...

       Então ela não quis mais ver o cretino estúpido e voltou o pensamento para uma pessoa por quem se julgava apaixonada. No momento seguinte, diminuiu sensivelmente a marcha do carro, quase parou, porque estava diante da casa dessa pessoa. E riu muito, porque se sentiu invadindo a privacidade daquela pessoa que, nem de longe, sonha os pensamentos malucos que ela tem a respeito dele. Imaginou alguma coisa como surpreendê-lo com a presença dela, mas afastou logo toda e qualquer hipótese de divagação, pois era necessário que ela fosse para casa antes que a madrugada branca findasse.

       E foi. Acelerou a marcha do carro sem olhar para trás, para não ver o dia chegando. Preferiu achar que deixava aquele caminho ainda cheio de madrugada branca. Tomou definitivamente o rumo da casa, não olhou mais o céu, não olhou mais ao redor, a fim de não ver o dia que iria impor-se, implacável.

       Chegou, estacionou, tomou o elevador, entrou, tomou banho, vestiu-se para dormir, pôs ordem em algumas coisas, deitou-se, nem pensou que poderia ser dia. Adormeceu. Era Natal.