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M
A D R U G A D A
B R A N C A
Ninguém
deveria morrer, ou nascer,
na
hora da madrugada branca...
E
assim, ela tem vivido aventuras interessantíssimas.
Pela primeira vez tem experimentado, realmente, o
gosto da liberdade, a liberdade plena, a liberdade de
até se impor não ter liberdade. E era tudo o que ela
almejava.
Então,
depois de se ter imposto um período de reclusão (ela
quis ficar reclusa), saiu da “toca”. Está
sendo dessa forma,
não porque tenha planejado, mas porque tudo
tem que acontecer na–tu-ral-men-te;
pla-ci-da-men-te; pau-sa-da-men-te; sem pres-sa
mes-mo.
Então,
ela resolveu ir passar o Natal na casa da amiga.
Relutou, um pouco por preguiça, um pouco por medo do
desconhecido, um pouco por não ser afeita a esse tipo
de comemoração, mas foi. Como tem sido ao longo da
sua vida, experimentou, foi por experiência, mais
uma. E gostou. Sentiu-se bem. Tomou quase três
garrafas de vinho, fumou, comeu, conversou à beça.
Que
bom! Casa de família. Não foi barzinho, mas poderia
ter sido. Em qualquer lugar, com aquela gente, estaria
bem. Papo gostoso, conversa jogada fora, conversa
proveitosa, conversa de nada, conversa de tudo,
fofoca, novidade, novas amizades, amizades antigas,
velhos abraços, más notícias, alegrias, ah, sim,
muita alegria! Ela a-do-rou. Não havia dança, não
havia música, não havia muita luz, ou melhor, não
era uma iluminação direta, era meia-luz. Tudo uma
beleza. Ela decidiu sair da toca, então até a rua,
sua velha conhecida, era novidade. Mas agora, mesmo
conhecendo bem aquele caminho, aquelas ruas, agora
ela estava realmente só. Não era uma solidão
circunstancial, era real. Estava satisfeita, plena de
estar sozinha.
Então
ela foi. E gostou. Passou a noite toda conversando, até
que... chegou a madrugada. Mas não era madrugada. Ou
era a madrugada? Era. Antes do amanhecer total, antes
de tudo ter se acordado, antes de o sol ter
despertado, quando os pássaros estão timidamente
soltando o seu trinado (os pássaros acordam-se antes
do sol), antes de o sol, preguiçosamente, esticar os
seus raios, antes de... Bem, é o que ela chama de
madrugada branca. Para ela, há duas madrugadas antes
da manhã: a madrugada preta e a madrugada branca.
A
madrugada preta é aquela que vai da meia-noite até,
mais ou menos, às quatro e meia. É quando você tem
a necessidade de dormir e tem permissão para dormir.
Você vai dormir a qualquer hora da noite anterior, não
muito cedo, se não, você será severamente criticado
(– Mas já ?! Tão cedo ?!!!), e enfia-se na
madrugada preta. É quando está escuro e,
aparentemente, por convenção ou, quer saber mesmo ?
É quando há mesmo a necessidade de dormir. A
grandiosa natureza impõe. É isso. É natural que se
durma durante a madrugada preta.
A
madrugada branca é quando o dia vai se acordar. É,
pode ver, a vida fica todinha branca. Tudo fica
branquinho... Fica tudo branco e molhadinho ! Você se
sente o dono do mundo. Você jura que nunca mais vai
pecar, porque é uma hora sagrada, é uma hora belíssima,
pura, mágica. É o crepúsculo pelo avesso. Você só
pensa em coisas boas. Você começa a amar o mundo, e
é como se a gente estivesse experimentando um
primeiro beijo. É isso, é misteriosa. A madrugada
branca é assim: pomposa, respeitável, sedutora,
sensual. Mas ninguém transa, na hora da madrugada
branca, ou não deveria transar. Também não deve
rezar, nem falar, nem pensar. Deve ficar somente
extasiado, atoleimado, olhando-a. Ficar assim,
estarrecido, deixar-se encantar pela beleza dela, para
se permitir descobrir o que ela vai oferecer. Porque
aos poucos, ela dá lugar à aurora. É uma passagem
encantadora. É um parto que a natureza experimenta
diariamente, de forma disciplinada,
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mas não por
obrigação. Por “natureza”, com
“naturalidade”, porque sabe que é assim, porque
deve repetir (?)... Imagina! Nunca repete! Toda vez é
um espetáculo diferente. Nós, pobres mortais, é que
vivemos repetindo! Nós é que somos repetitivos! A
natureza, nem quando produz gêmeos!... Pois é. A
natureza completa mais um ciclo, e o faz com
singularidade e ao mesmo tempo, com galhardia. É uma
apoteose!
Na
madrugada branca, permitem que você durma mais um
pouco. Mas só mais um pouco, porque se não, você
será duramente criticado (– Onde já se viu dormir
tanto?!). Aliás, para muitos moralistas ou, sabe-se lá
que tipo de gente mais louca! Para essa gente, dormir
é, paradoxalmente, um pecado e um anseio. Talvez seja
porque o anseio pareça encerrar em si um pecado.
E
foi na hora da madrugada branca que ela voltou para
casa. Feliz, com a consciência tranqüila, cheia de
esperanças, louca por chegar a casa e louca por ficar
partilhando aquele momento com a natureza. Mas voltou
para casa porque logo, logo, a realidade estaria
diante dela, servindo-lhe o café. Mas era feriado,
era o dia do Natal, estavam todos dormindo aquele sono
permitido e somente ela estava acordada, dirigindo o
carro. Poderia voltar sem pressa, com pressa, porque
– ai! – já,
já, a aurora chegaria. Poderia ter parado o carro no
meio da rua, que ninguém ia ver. Foi ótimo!
Aí,
ela viu uma pá de coisas. Não viu, não tinha o que
ver, dentro daquela imensa beleza com tanta coisa para
ver. Aí, ela viu um cretino estúpido passar, não
sabe onde, numa calçada. Era a primeira pessoa no
mundo que se acordara. Ela pensou que era um cretino
estúpido. Aí, ela sentiu dó do cretino estúpido.
Tentou achar que era um trabalhador, mas preferiu
achar que não era um trabalhador, que era um cretino
estúpido, porque era feriado, porque era o dia do
Natal. Como é que alguém vai trabalhar nesse dia?
Nem era um jornaleiro!... Tentou ver se era um
jornaleiro mas, aquela criatura que ela achou também
que era um cretino estúpido de chapéu, aquela
figura, violentando a madrugada branca, havia sumido.
Não o viu mais, nem quis ver. Porque ele era um
cretino muito estúpido de chapéu que quase estragou
a madrugada branca. Porque também, é gozado. A
madrugada branca é muito delicada, muito tênue, mas
não é frágil. É sen-sí-vel, e qualquer sinal mais
brusco da hora seguinte pode estragá-la e aí, ela só
vai voltar vinte e quatro horas depois, entendeu? E
– quem sabe? –
você só vai poder presenciar outra madrugada
branca muitas vinte e quatro horas depois...
Então
ela não quis mais ver o cretino estúpido e voltou o
pensamento para uma pessoa por quem se julgava
apaixonada. No momento seguinte, diminuiu
sensivelmente a marcha do carro, quase parou, porque
estava diante da casa dessa pessoa. E riu muito,
porque se sentiu invadindo a privacidade daquela
pessoa que, nem de longe, sonha os pensamentos malucos
que ela tem a respeito dele. Imaginou alguma coisa
como surpreendê-lo com a presença dela, mas afastou
logo toda e qualquer hipótese de divagação, pois
era necessário que ela fosse para casa antes que a
madrugada branca findasse.
E
foi. Acelerou a marcha do carro sem olhar para trás,
para não ver o dia chegando. Preferiu achar que
deixava aquele caminho ainda cheio de madrugada
branca. Tomou definitivamente o rumo da casa, não
olhou mais o céu, não olhou mais ao redor, a fim de
não ver o dia que iria impor-se, implacável.
Chegou,
estacionou, tomou o elevador, entrou, tomou banho,
vestiu-se para dormir, pôs ordem em algumas coisas,
deitou-se, nem pensou que poderia ser dia. Adormeceu.
Era Natal.
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