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EM
BOA COMPANHIA
Todas as vezes que eu tenho de enfrentar uma
espera, por exemplo, numa fila de banco, vou com um
amigo e aí conversamos à beça. Às vezes não dá
tempo, é uma conversa rápida, às vezes ficamos
quietinhos, cada qual com suas conjecturas. Nessas
horas eu fico observando o comportamento das pessoas,
como se conduzem, como se vestem, tento imaginar o que
vão fazer ali, quais são suas dúvidas, de que forma
perguntam e como as orientações são assimiladas.
Vejo tipos esquisitos, às vezes medonhos, gente suja,
gente limpa, gente mais ou menos limpa, gente
perfumada demais, quase sempre com perfume ordinário
(ugh!), vejo gente feia (a maioria).
Vejo casais de namorados, ah, é uma beleza!...
Eles se beijam, abraçam-se, acarinham-se, tudo são
risos, cochichos, olhares maliciosos, delicadezas,
mimos. Exulto! Vejo “hippongas” também, e me
divirto, ah, como eu me divirto!
Nunca
sei sobre o que os meus amigos pensam. Engraçado... A
gente não comenta sobre essas coisas. Na verdade, eu
presto mais atenção ao que eles dizem do que eles ao
que eu digo. Às vezes há uns como a Clarice, por
exemplo, que é meio complicada, aliás, muito
complicada!!! Ela é angustiada, ansiosa, nervosa,
quer fumar dentro do banco... olha, é meio difícil a
convivência com ela. Mas é boa gente, muito boa
gente. É pena que ela não goste desse tipo de
‘passeio’. Ah, mas aí tem o Luís Fernando, o
Fernando, o Bento, a Lygia, o Dourado, o Jorge e o
Carlos. Tem também o Moacir, o Sérgio, o Carlos
Heitor, o Rubens, o Joaquim e o Otto.
O
Luís Fernando, o Fernando, o Carlos Heitor, o Bento,
o Jorge, o Rubens, o Moacir e o Sérgio fazem-me rir
à beça. Eu me divirto a valer com as coisas que eles
dizem. Não sei qual deles é o mais engraçado, e até
me surpreendi quando descobri coisas divinas sobre o
Bento. Figura ma-ra-vi-lho-sa! É bom conhecer as
pessoas mais a fundo. Ele foi um revolucionário, uma
pessoa bem à frente do seu tempo, com uma visão de
mundo, uh, lá, lá! Quisera tê-lo conhecido há mais
tempo... Quando
ele me conta ‘causos’, é uma delícia. Aquela
história do Resto de Onça é ímpar! Agora eu posso
dizer que conheço o Bento, embora nunca mais tenha saído
com ele.
Num
outro dia, conheci o Otto. Foi amor à primeira vista.
Conhecemo-nos por acaso e logo começamos um flerte.
Tivemos um namoro rápido, mas o suficiente para ele
se tornar mais um fato marcante em minha vida. Lamento
que tenha durado tão pouco... Foi intenso, sabe?
Quase não desgrudávamos um do outro, eu queria estar
o tempo todo com ele, mas acabou. Ah, mas vamos
voltar, sim! Ele me fez muito bem! Como sempre, sei
que sou eu quem irá procurá-lo. Talvez ele queira
voltar, mas por algum motivo, eu deverei tomar a
iniciativa. Não faz mal, eu fiquei mesmo
‘caidinha’ por ele e sei que valerá a pena
batalhar par tê-lo de volta.
O
Jorge está sempre por perto e à disposição. A
qualquer hora podemos nos encontrar e sei que ele terá
o maior prazer em me contar aquelas histórias bem
compriiiiidas, cheias de sensualidade, com aquelas
mulheres maravilhosas, todas heroínas, batalhadoras.
O Jorge tem um respeito profundo por todas as
mulheres, é muito cavalheiro com elas. Para ele, cada
mulher é uma dama e ele cuida de cada uma como se
fosse a única. Parece coisa de “Don Juan”, mas não
é. No fundo, no fundo, Jorge é um romântico
incorrigível. Acho que é por isso que nos damos tão
bem.
Embora eu tenha
muita identificação com o Luís Fernando, o Moacir,
o Fernando, o Sérgio, o Carlos Heitor e o Rubens,
quase não tenho procurado a companhia deles. São
maravilhosos, de uma conversa muito agradável, mas só
tenho conversado com eles esporadicamente.
O
Dourado, ah! É fascinante! De uma sensibilidade rara,
lírico, muito, mas muito inteligente! Prendeu-me a
atenção numa conversa linda! Nossa!!! Quase não nos
largávamos mais. Saí muitas vezes com ele, fomos
juntos a vários estabelecimentos bancários. Eu,
entediada por ter de cumprir aquela tarefa detestável
e ele, superpreocupado em me distrair, com suas histórias
dos tempos de criança e adolescente. Sinto que
preciso revê-lo... Dourado é impressionante! Dourado
não. Todo de ouro!
Não
fosse a quase rabugice do Joaquim, eu o convidaria
mais vezes para sair comigo. A conversa dele é impecável,
mas às vezes passa os limites da formalidade. Uma
grande virtude nele é a correção da linguagem:
per-fei-ta! Como a conversa dele é envolvente,
profunda, esmerada, sensual até, eu não descarto a
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sua companhia. Gostaria de que ele fosse menos
circunspecto e pudesse ser mais divertido, mas é
muito sisudo, não é dado a gargalhadas. Uma coisa é
certa: — Quer aprender a falar bem? Converse com o
Joaquim, ele é uma excelente companhia.
O Carlos não é
de muita prosa, por sinal, não gosto muito de
conversar com ele. A conversa dele é antipática,
embora eu saiba que ele tem condições de dizer
coisas lindas. É muito romântico o Carlos, mas
quando conversa – Deus meu! – , é um chato.
Talvez seja aquele jeitão dele, meio esquisito. É
isso, é muito esquisito, mesmo. Num outro dia,
tivemos uma conversa bem divertida, mas na maioria das
vezes, mesmo quando tenciona ser engraçado, não
consegue. Ele é sério demais! Agora, provoque-lhe o
lirismo, responsabilize-se pelas conseqüências e
depois conte-me o que aconteceu.
Pessoinha
gostosa de conversar com ela é a Lygia. Ultimamente
tenho saído muito com ela, e pretendo sair mais
vezes. Há momentos em que eu gostaria até de que o
tempo não passasse, para a nossa conversa durar mais.
Ela é tudo junto: romântica, sagaz, mordaz, serena,
inquieta, chego até a identificá-la com o Otto.
Impressionante é a elegância da conversa dela. Não
é à toa que se veste muito bem! Gosto de estar com a
Lygia. Talvez porque sejamos mulheres, não sei bem,
mas somos afins.
Outras
pessoas com quem eu gostaria de ter mais contato são
o Mário e a Cecília. Nossa! Ele é todo romantismo,
doçura, queixumes, um amor mesmo. A Cecília, naquela
delicadeza toda, é firme, segura, diz o que quer, mas
não perde aquele jeitinho doce de uma aparente
fragilidade... Aparente porque aquela mulher é mesmo
uma rocha. Não citei os seus nomes porque nossas
conversas têm sido muito raras, embora eu os conheça
bem. Apenas não tenho saído com eles com a mesma
freqüência com que saio com os outros, mas bem que
eu gostaria. Vou-me esforçar por isso.
Pois
é. A maioria das pessoas queixa-se de que esperar é
ruim. De fato, não é a melhor coisa do mundo, mas se
soubermos escolher boas companhias, até filas de
bancos podem revelar seus ‘encantos’. Eu que o
diga...
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