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A
PROMESSA
Ela queria
muito, ter cabelo grande. Cabeleira comprida, para ser
mais clara. Fazer tranças, rabo-de-cavalo, luluzinha
(ou maria-chiquinha?), coque... – coque era de moça
grande, de mulher velha... não, velha usava cocó–.
Tá bom: faria um rabo-de-cavalo e enrolaria o cabelo
até o ponto de prendê-lo com beliros. Era a mesma
coisa; a diferença é que usava um laço de fita.
Queria também fazer uma trança, dobrá-la e amarrar
com uma fita bonita, formando um laço, como Filó, a
loirinha com sardas. Linda, Filó! Mais bonito era o
cabelo dela: grande. Não que o exibisse. Era penteado
numa trança – ela achava mais bonito duas tranças
– que alguém dobrava e amarrava com uma fita.
Variavam-se as fitas, mas o penteado era o mesmo. Filó
não desamarrava o cabelo porque a mãe dela não
deixava.
Um
dia, por insistência das coleguinhas, Filó exibiu o
cabelo. E ela viu. Hummmmm!!! Lindo! Um sonho! Fios
dourados! Filó chorou, ninguém sabia fazer trança.
A professora sabia e refez a trança. Nunca mais Filó
desarrumou o cabelo. Que pena! Assim não adiantava
ter cabelo grande.
Mãe
é assim, tudo igual. Uma não deixa a filha ter
cabelo grande; a outra deixa, mas o cabelo tem de ser
amarrado. Pra quê? E Filó, conformada, respondeu:
“— É para não pegar piolho, nem sujar muito.
Cabelo grande é assim.” Ela mesma já havia
“pegado piolho”, um horror: corta cabelo – de
novo? – neocid, lenço na cabeça, fala baixo para
os vizinhos não ouvirem...
Ah, assim tá certo. Não estava. Dentro do seu
coração, no seu universo, não estava. Se sujasse,
lavava. Como mãe é besta!... Continuou achando que
as mães estavam erradas. Um dia teria cabelo grande.
Piolho, a gente mata.
Viu
aquela menina do ginasial, na aula de ginástica. Não
olhava para a menina – uma mocinha já – olhava o
cabelo da menina. Ela usava ‘que nem’ o de Filó.
Não tão arrumado, o laço era frouxo. O cabelo era
preto. Quer dizer que cabelo preto também cresce?
Claro, tudo é cabelo. A menina deitava, levantava, o
cabelo balançava; deitava, levantava, o cabelo...
—
Você se deita no chão com esse cabelo?
—
Deito, tenho que fazer ginástica.
—
E não suja?
—
(Risadas da menina) É, mas eu lavo. Tchau!
—
Ah, é mesmo... Ela sabia, mas a mãe não
deixava.
—
Você usa... A menina tinha ido embora, não a
escutava mais.
Viu
a mesma menina num outro dia, dessa vez com
rabo-de-cavalo. Arriscou:
—
Você penteia o cabelo do jeito que você quer?
—
Claro, o cabelo é meu.
—
E sua mãe?
—
Eu faço o que eu quero, quer dizer, com o meu cabelo.
O cabelo é meu, minha mãe manda em mim, não no meu
cabelo.
—
(Aquilo é que era autonomia! Ela chamava liberdade.)
Mas Filó...
—
Ah, eu sei quem é Filó. É, a mãe dela não deixa
ela soltar o cabelo.
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—
Por quê? Você sabe?
—
Acho que é porque ela é pequena, menina pequena é
assim. Quando eu era pequena, minha mãe também só
deixava o meu cabelo curto.
—
(Pensou em sua própria mãe.)
—
Mas agora eu cresci, disse à minha mãe que eu ia
deixar o meu cabelo crescer, deixei.
—
(Quanta liberdade! Isso sim!)
—
Sua mãe não deixa o seu cabelo crescer?
—
Não.
—
Deve ser porque você é pequena. Quando você
crescer, ela vai deixar.
—
Eu sou grande. (De fato, era crescida para os seus
oito anos.)
—
Ah, ra!!! Olha... é não, iih! Tchau!
Era
pequena. Filó era pequena. Porque, também, tinha uma
coisa: Filó não gostava do cabelo grande, dizia que
dava trabalho. Era a mãe dela quem queria. — Será
que não dava para ‘trocar de mãe’? Mas Filó
obedecia. Claro! Se fosse para ter o cabelo grande,
ela obedeceria ce-ga-men-te.
Tivera
os cabelos grandes, quando pequenina, mas não
conseguia se lembrar de como eram, não conseguia.
Lembrava-se apenas de que usava duas tranças que eram
amarradas uma à outra, no alto da cabeça. Um dia,
cortou uma das tranças. Depois de um escândalo, a mãe
acertou com uma tesoura os cabelos da filha, e achou
que a filha tinha fica liNda
com aquele cabelo — Vai usá-los curtos.
— Maldita experiência para ‘colar’ a
trança novamente!
Foram
morar numa pensão: ela, os pais e a irmã –
obediente, de cabelos curtos... — Quem dera ser
ela... — Será que ela gostava, mesmo, de cabelo
curto? Não conseguia entender...
A
dona da pensão tinha um xale preto, grande,
encorpado. Esse xale foi por muito tempo o ‘seu
cabelo’. Pena que não fosse de verdade... Não dava
para fazer trança, mas ‘fazia de conta’. Ah! Dava
para fazer rabo-de-cavalo e maria-chiquinha, mas não
dava para pentear. — Era menos trabalho, mas não
era ‘de verdade’... — Cabelo ‘de mentira’...
Iam rir da cara dela. Pobre, pequena, morando em pensão,
com cabelo ‘de mentira’, iam rir. Fez disso um
segredo.
Amarrava
o ‘cabelo’, fazia ginástica: deitava, levantava,
olhava do lado, que nem a menina do ginasial...
Hummmmm, que ‘cabelo’!!! Incomodava, mas fazia de
conta que não.
A
dona da pensão pediu o xale de volta:
—
Você prometeu que não ia para a calçada com o MEU
xale e nem amarrava o xale.
—
Xale?!... Era ‘cabelo’, ela não sabia? Só tinha
aquele retrato na parede, de quando era menina, com
batom, mas o cabelo era curto. Já viu menina usar
batom sem ser carnaval?!...
Devolveu
o xale — ou o cabelo? — .
São
João. Já estavam morando em uma casa, só eles, a
família. A
professora tinha dito que trança de cebola serviria.
A mãe concordou.
—
Ah, que nada... – alguém falou. – Eu tenho em
casa umas tranças lindas, de lã.
—
A mãe não entendeu, só quando viu arrumada.
—
A gente coloca assim, prende, a franja é a dela,
mesmo. É bom porque tem franja, fica mais natural. A
mãe anuiu.
—
Coloca o lenço assim...
Ela
prestou bem atenção, para aprender e fazer num outro
dia.
—
Pronto, ficou linda! Parece que são dela, mesmo.
Puxa! Seu cabelo ‘cresceu’ num instante! E se você
quiser...
—
Você dá essas tranças para mim?
—
Claro! Eu não vou usar, iam ficar guardadas lá em
casa mesmo... Você fica com elas, mas tenha
cuidado...
A
mãe quis intervir.
—
Não, claro, são dela. EU
estou DANDO
as tranças A
ELA! Olhe, e faça o que você quiser. Tá vendo
como ficou linda? Eu não disse que ela ia ficar
linda?
Exultou!
Tirou retratos. Mas as tranças eram curtinhas, leves,
não iam ficar como o cabelo de Filó. Mas eram tranças.
Guardou-as por muitos anos.
Ganhou
uma boneca. Cabelo penteadinho, colado... Bolas! Não
podia nem pentear...Olhou, experimentou, forçou,
puxou... Aaaah, cabelo grande! Fez trança, coque (em
boneca podia), duas tranças, rabo-de-cavalo, uma trança
só de um lado, virou cabeleireira de boneca.
Cortou-lhe os cabelos. Ora bolas, cabelo de boneca não
cresce! E agora?...
Cresceu.
O cabelo, não. Ela. Por coincidência, reencontrou
Filó. De cabelos curtos, feliz! Mas... como...? Filó
lhe disse que já era uma moça – linda! – e
detestava aquele cabelo grande.
Pois
é. O cabelo ERA DE FILÓ. E por que ELA NÃO PODIA
TER O ‘SEU PRÓPRIO CABELO’? Chegou até a mandar
cortar o cabelo para ver se “amolecia” o coração
da mãe.
—
Ah, agora sim! Concorda comigo que é mais bonita de
cabelo curto?
—
Concordo...
Não
concordava. Tinha feito e decidiu que faria assim, mas
não concordava. Um dia, deixaria que ele crescesse.
Fez
um trato com a mãe: - Deixaria o cabelo crescer. Se a
mãe não gostasse achasse feio – afinal, nunca mais
a tinha visto com o cabelo grande – , ela mesma
mandaria cortar e o manteria curto.
A
mãe gostou. — “Se soubesse, nunca teria
cortado...” Ela sentiu uma pontinha de remorso na
voz da mãe. Teve pena, mas exultou.
Quis
agradar à mãe, mais uma vez. Fim de ano, terceiro
ginasial, não tinha sido uma aluna brilhante. Foi à
igreja de São Pedro dos Clérigos – sempre achou
esse nome bonito, imponente, importante!
—
Meu Deus, se eu passar de ano, eu prometo cortar o meu
cabelo, como a minha mãe gosta.
Era
um sacrifício! Bem uns dez anos para conseguir deixar
o cabelo crescer e agora...
Chegou até a se arrepender da promessa, mas
“promessa é promessa e com santo não se brinca”.
Ora santo... Era mais, era Deus. Não fazia promessa a
santo. Escolhera a igreja de São Pedro, mas a
promessa era a Deus. Até “torceu” pela
possibilidade de ter sido reprovada. Mas daria o maior
desgosto à mãe.
Foi
ao colégio. Precisava de três e meio em Matemática
e tinha tirado três. Meio ponto, segunda época em
Matemática, por meio ponto.
Procurou
o professor. Ele estava com um visitante, um amigo,
parece que não se viam de longa data.
O
amigo enfadou-se:
—
Vai, homem, atende logo a menina, dá logo a nota...!
Já passou, minha filha, vá... ora bolas... a gente
querendo conversar aqui...
O
professor escreveu 3,5 (três e meio) e riscou o 3,0
(três), com uma advertência:
—
Agradeça a ele, viu? Eu nem sei por que estou fazendo
isso... De outra vez...
—
Muito obrigada, professor. Não vai ter outra vez, até
logo, meu senhor...
—
Olhe, o professor mandou colocar essa nota na
caderneta ...
Saiu
louca de alegria. Foi para casa, disse à mãe (mas
somente que havia passado), a mãe ficou feliz.
—
Vou cortar o cabelo, eu prometi...
—
Não, você não queria grande?
—
Quero, mas prometi...
Selma, por favor, corte aqui um pouco, viu? Eu
fiz uma promessa...
—
Mas que promessa mais fuleira!...
—
Por favor, como eu estou pedindo...
Uns
dias depois, voltou à igreja.
—
Meu Deus, São Pedro... (?)
Não se lembrava mais. Por via das dúvidas,
agradeceria também, a São Pedro, afinal, ele era o
dono ‘daquela igreja’. Não era aquele da fogueira
de uns, mas de outros não. Porque é assim: – No
dia de São Pedro tem fogueira, mas não é todo mundo
que faz, entendeu? Ele não é tão festejado quanto São
João. Nem era mais dia feriado... Sentiu dó de São
Pedro. Logo ele, o chaveiro do céu!... Será que eram
o mesmo?
Falou
também, a São Pedro dos Clérigos.
—
Meu Deus, meu São Pedro dos C
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lérigos, eu passei de
ano, mas vejam bem: — Eu prometi cortar o cabelo
todo, se tivesse passado, mas eu ia ficar em segunda
época em Matemática. Aí, eu falei com o professor e
ele me deu o meio ponto. Cortei o cabelo, bem
pouquinho, mas cortei. Eu nem ia passar, não foi?
Muito obrigada, do fundo do meu coração. Eu só
paguei pela metade, porque só ganhei pela metade, não
é verdade? Pai-Nosso, Ave-Maria, Salve-Rainha, Creio
em Deus Pai – para reforçar – ,etc. Em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.
Deixou
o cabelo crescer, conservou-o grande por muitos anos.
Era o CABELO
DELA.
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