Um conto de
Cândido de Deus
RELATO
Não
havia mais de dois minutos que estava lá dentro. A
casa estava escura. Tossi por causa da poeira. Sabem
que sou alérgico. Indo para o quarto, cada degrau da
escada me trazia um único pensamento.... Estará ela
deitada lá do jeito que a deixei...? e a poeira...?
e os ratos e insetos, o tempo? Não haveria de estar
podre, mas carcomida ou.... Desculpem-me. É
embaraçoso fazer este relato na frente de todos os
presentes, digo, com vocês todos me olhando dessa
forma. Jamais mentiria para vocês, principalmente
nesse lugar, vocês conhecem este lugar mais do que
eu e sabem que não mentiria. Sabem disso, não sabem?
Bem, continuemos, se é assim que tem de ser, vamos
acabar logo com isso. Entrei no quarto. Olhei a cama
e lá estava ela. Deus!... do jeito que a deixara.
Deitada, imóvel, como um doce, um chiclete
esquecido, colado na cama.
Ora, meu tio, poupe-me dessa pergunta estúpida!
Lógico que fui eu. Não nego. Nunca neguei. Fui eu
quem a deixou sobre o mesmo lençol vermelho, sob a
mesma sombra da janela. Fui eu que a deixei lá,
ouviu? Sim. Eu, meu tio. Por favor não me interrompa
mais! Sabe como sou com uma arma na mão, não sabe?
Calem-se todos vocês!! Não, pai, agora nem mesmo
você pode falar! Escutem-me apenas. Escutem. Vocês
sabem o quanto a amava. Nos éramos felizes, não
éramos? Lembram que íamos ao parque as
terças-feiras, que amávamos os animais, os cinemas,
as sextas e os domingos...... Eu disse pra calar a
boca!!! O próximo eu atiro para pegar, tio. Juro que
atiro. Pois bem, é irônico não é: somente ver minha
filha as sextas e aos domingos por causa daquela
cadela! Aquela vadia me proibia de tudo. Maldita
hora em que a conheci. Ângela não tem culpa de ter
tido a mãe que teve. Mas mãe a gente não escolhe.
Não é mesmo, mamãe? Mãe a gente não escolhe.
Naquele dia eu estava bem mais calmo do que vocês
pensam. Era um belo domingo. Um domingo calmo. Calmo
como eu estava. Calmo demais. Como sempre fui pegar
Ângela. Prometera um sorvete. Sorvetes são bons para
os domingos. Fazem a gente refletir. Depois do
sorvete mataria Ângela, mataria a minha filha por
querê-la só minha. Foi fácil. Um frasquinho de
veneno. Uma sorveteria vazia. Morte dolosa,
passional. Duas horas depois a deixaria na cama
daquela casa que vocês nem lembravam, no meio do
mato. Dormindo como um bebê, meu bebê querido...
Trancaria tudo e fugiria. Exterior. Gostam da
camisa? Paris.
Vocês me odiaram, eu sei. Eu me odiei.
Até o ódio me odiou. Sou um monstro. Cale-se
mamãe! Sim, você gerou um monstro. Um monstro que
sete meses depois veio visitar sua vítima.
Certificar-se. Vomitar... Por que lhes trouxe aqui,
papai? Boa pergunta. Mostrarei. Mostrarei agora por
que lhes trouxe aqui, no mausoléu da família,
retirando-lhes dos sagrados afazeres da terça, para
perto do túmulo dos nossos ancestrais. Trouxe-lhes
aqui para testemunharem a morte de um monstro. Não,
mamãe! Já decidi. Não vivo assim. Vou
ver Ângela. Pedir desculpas.
Passear no parque... – Filho!
Filho... Nãão!! – Largue-o,
mulher, nosso filho era
doente. – Vamos, irmão, temos um corpo e uma arma
aqui. Qual de nós chamará a policia?