Círculo Literário Organizado Verso In Verso - Obra/Autor - Cândido de Deus - Ferida Recife Antiga

   
 

 

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Cândido de Deus

 

FERIDA RECIFE ANTIGA

 

Recife antigo, lar esquecido das tradições

Tens por castigo tuas antigas construções

Lembram  no hoje teu apogeu... a tua glória!

Mas teu bom povo não pode cantar vitória

Em cada rua uma lembrança do passado

Tempo em que a cana te fazia consagrado.

Pobre cidade cuja história é tão sofrida

Filha de escravos africanos... sub-vida

Esquece as crenças, costumes de quem te fez

E anda em pontes de um explorador holandês.

Recife antigo, rendido ao capitalismo

Vida noturna que explode em otimismo

A burguesia dançando numa casa lotada

Não vê o mendigo definhado na calçada.

Recife, abrigo do idoso e do menino,

Tuas favelas carregam atroz destino,

Berços do negro liberto e entregue à sorte

Que hoje disputa o pouco espaço com a morte.

Recife tido por Veneza brasileira,

Pena, tua glória ter sido tão passageira

Até a fama de um apelido todo teu

Recebe a tinta de um codinome europeu.

Recife amigo, tão querido a cada dia,

Pelo teu filho és condenado em poesia

Não porque queira, ao contrário, me envergonho

De ver o progresso do meu pai tornar-se um sonho.

Perdoa então o teor da sinceridade

Que esconde a cor e mostra a dor da minha cidade.

 

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