Círculo Literário Organizado Verso In Verso - Obra/Autor - Alameda Lopes - Tempos de Poesia

   
 

 

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Alameda Lopes

 

TEMPOS DE POESIA

 

Há tempos quis fazer esta poesia

Ou, simplesmente, deitá-la ao papel.

Ela já reinava em mim,

Era de meu céu o querubim,

Perfume de meu jasmim,

A flor de meu jardim.

 

Há tempos quis deitá-la ao papel

Com  todos os dias, todos os anos,

Com todas as confusões, todos os enganos,

Com todos os fulanos, todos os beltranos,

Com todos os rios, todos os oceanos,

Com todas as previsões, de todos os ciganos.

 

Mas os ciganos haviam errado,

Os oceanos haviam secado,

As teias perderam o emaranhado,

Os logros haviam se findado,

 O tempo havia acabado

E a poesia triste, um fado.

 

Quis fazê-la com a plástica

Das coisas transeuntes , das pessoas estáticas.

Com versos delirantes, com palavras enfáticas

Oscilando da teoria até  a prática.

Com todas as lições, todas as didáticas,

olor="#003300">Com números da gramática, conceitos da matemática.

 

Mas as lições estavam esquecidas,

As palavras exauridas,

As pessoas aturdidas,

As coisas jazidas,

A inspiração delinqüida,

E a poesia vaga, perdida.

 

Quis fazê-la com a aurora

Do turbilhão das horas,

Do grito de quem chora,

Do que ficou em outrora,

Do que se faz agora,

Do que se encontra por aí afora.

 

Mas no mundo tudo era tão vazio:

O presente ficou tão frio,

O passado, um momento vil,

As lágrimas viraram rios,

As horas perderam o brio

E a poesia um acesso, um calafrio.

 

Um fado perdido, um calafrio, um pleito.

A poesia vagava perdida, sem jeito,

Movia-se confusa me meu peito,

Rolava obtusa em meu leito.

Tentei de tudo, do simples ao perfeito

E a poesia um nada, nada surtia efeito.

 

Até que um dia a inspiração apareceu.

Foi quando no teu olhar eu perdi o meu,

Quando no meu corpo se encontrou o teu,

Quando na tua boca a minha se perdeu,

Quando desceu do céu o nosso Himeneu

E a poesia forte, leão nemeu*.

 

Afoguei-me na viva água de teu beijo,

Queimei-me na água-viva de teu desejo,

Nas fagulhas daquele louco ensejo,

Nas vivas chamas que ainda vejo,

Nas chamas vivas que ainda desejo,

E a poesia um sonho, um realejo.

 


Intertextualidade; alusão ao leão morto por Hércules na cidade grega de Neméia .

 

 

Quando para nós o mundo era diferente,

Quando para o mundo nós éramos indiferentes,

Quando para o relógio – momento ardente,

Quando minhas mãos em teu corpo saliente

Passeavam com os intentos mais indecentes...

E a poesia saía de nossos poros, envolvente.

 

Quando caímos naquele enlace caliente,

Quando fervíamos em nosso suor quente,

Quando íamos do opaco ao transparente,

Quando ardíamos em nosso hálito fervente,

Aprendi a viver intensamente

E a poesia vida, inteligente.

 

Quando me olhavas com teu olhar insinuante,

Quando me falavas com tua voz cantante,

Quando fazíamo-nos amantes,

Um do outro, naquela aventura emocionante,

Entregava-me a teus braços, delirante

E a poesia ferro, penetrante.

 

Quando me perdoavas os erros, falcatruas,

Quando ficava o cheiro meu na roupa tua,

Quando o corpo teu roçava-me a pele nua,

Percorrendo-me naquela insânia crua,

Sentia teu perfume, que em mim perpetua

E a poesia prata, cheia lua.

 

Quando não havia ninguém mais apaixonado,

Quando eu bebia do suor por ti derramado,

Quando sonhando estávamos abraçados,

Quando me abraçando cercavas-me por todos os lados,

Eu era tua ilha, teu mundo encantado

E a poesia fluía, mel de ti emanado.

 

Um leão forte, um sonho envolvente,

A poesia criou vida, era inteligente.

Na erupção de nossos poros, na inspiração adjacente,

Na junção de nossos corpos, em nossos ímpetos carentes.

A poesia era prata, era lua de enchente,

A

poesia era doce, era mel fluente.

 

A inspiração foi embora, no entanto,

Foi quando eu perdi o teu acalanto

Quando das mãos espalmadas fez-se o espanto*

Quando separados, cada um em seu canto

Comecei a sentir as saudades, que hoje ainda canto

E a poesia dor, puro quebranto.

 

E eu quis reviver a poesia, entretanto

Descobri ser obsceno o pensamento que era santo,

Descobri ser veneno o sentimento que era manto,

Descobri ser ilusão o mundo que era encanto,

Descobri perdida a vida que eu queria tanto

E a poesia mágoa, puro pranto.

 

Quis viver a poesia mais uma vez,

Mas foi embora minha lucidez

Quando vi que nossa paixão era insensatez,

Que nossos beijos eram toxidez,

Que nossos abraços eram sordidez

E a poesia frágil, pura morbidez.

 

Quis recolocar na poesia a vividez

Mas bati de frente na tua frigidez

Quando vi que tua realeza era de princêz,

Que tu foras maquilagem, talvez,

Que era de brinquedo a tua tez

E a poesia frio, pura nudez.

 


Intertextualidade; alusão ao Soneto da Separação, de Vinícius de Morais.

 

 

 Quis rever a poesia na amplitude do céu

E não a revi na transparência de teu véu.

Quis ter-te de novo em nosso anel

E percebi que nossa aliança era de papel.

Quis sonhar bebendo de teu mel

E a poesia era amarga, puro fel.

 

Quis redescobrir a poesia em teus pensamentos,

Como quando tínhamos os mesmos intentos,

Como quando partilhávamos os mesmos sentimentos.

Mas descobri que tudo era passamento

Na dor da separação em meu sofrimento

E a poesia dispersa, folha ao vento.

 

Quis renascer aqueles instantes

Onde a felicidade era constante,

Onde eu passeava a tua montante.

Mas vi ir embora o teu semblante

Mas vi chegar o fogo, inferno de Dante*

E a poesia falsidade, verdadeira tratante.

 

Ela era fel, era frágil, era fria,

Era escuridão no céu sem a luz do dia.

 Quis renascer em mim a poesia

Mas sem ti eu era a criança que não sorria.

Há tempos fazer esta poesia eu queria

Mas  ensinaste-me que há tempos de se viver poesia.

 

Há tempos...

 


Intertextualidade; alusão ao inferno descrito por Dante Alighieri em sua obra A Divina Comédia.