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TEMPOS
DE POESIA
Há
tempos quis fazer esta poesia
Ou,
simplesmente, deitá-la ao papel.
Ela
já reinava em mim,
Era
de meu céu o querubim,
Perfume
de meu jasmim,
A
flor de meu jardim.
Há
tempos quis deitá-la ao papel
Com
todos os dias, todos os anos,
Com
todas as confusões, todos os enganos,
Com
todos os fulanos, todos os beltranos,
Com
todos os rios, todos os oceanos,
Com
todas as previsões, de todos os ciganos.
Mas
os ciganos haviam errado,
Os
oceanos haviam secado,
As
teias perderam o emaranhado,
Os
logros haviam se findado,
O
tempo havia acabado
E
a poesia triste, um fado.
Quis
fazê-la com a plástica
Das
coisas transeuntes , das pessoas estáticas.
Com
versos delirantes, com palavras enfáticas
Oscilando
da teoria até a
prática.
Com
todas as lições, todas as didáticas,
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olor="#003300">Com
números da gramática, conceitos da matemática.
Mas
as lições estavam esquecidas,
As
palavras exauridas,
As
pessoas aturdidas,
As
coisas jazidas,
A
inspiração delinqüida,
E
a poesia vaga, perdida.
Quis
fazê-la com a aurora
Do
turbilhão das horas,
Do
grito de quem chora,
Do
que ficou em outrora,
Do
que se faz agora,
Do
que se encontra por aí afora.
Mas
no mundo tudo era tão vazio:
O
presente ficou tão frio,
O
passado, um momento vil,
As
lágrimas viraram rios,
As
horas perderam o brio
E
a poesia um acesso, um calafrio.
Um
fado perdido, um calafrio, um pleito.
A
poesia vagava perdida, sem jeito,
Movia-se
confusa me meu peito,
Rolava
obtusa em meu leito.
Tentei
de tudo, do simples ao perfeito
E
a poesia um nada, nada surtia efeito.
Até
que um dia a inspiração apareceu.
Foi
quando no teu olhar eu perdi o meu,
Quando
no meu corpo se encontrou o teu,
Quando
na tua boca a minha se perdeu,
Quando
desceu do céu o nosso Himeneu
E
a poesia forte, leão nemeu*.
Afoguei-me
na viva água de teu beijo,
Queimei-me
na água-viva de teu desejo,
Nas
fagulhas daquele louco ensejo,
Nas
vivas chamas que ainda vejo,
Nas
chamas vivas que ainda desejo,
E
a poesia um sonho, um realejo.
Intertextualidade;
alusão ao leão morto por Hércules na cidade grega
de Neméia
.
Quando
para nós o mundo era diferente,
Quando
para o mundo nós éramos indiferentes,
Quando
para o relógio – momento ardente,
Quando
minhas mãos em teu corpo saliente
Passeavam
com os intentos mais indecentes...
E
a poesia saía de nossos poros, envolvente.
Quando
caímos naquele enlace caliente,
Quando
fervíamos em nosso suor quente,
Quando
íamos do opaco ao transparente,
Quando
ardíamos em nosso hálito fervente,
Aprendi
a viver intensamente
E
a poesia vida, inteligente.
Quando
me olhavas com teu olhar insinuante,
Quando
me falavas com tua voz cantante,
Quando
fazíamo-nos amantes,
Um
do outro, naquela aventura emocionante,
Entregava-me
a teus braços, delirante
E
a poesia ferro, penetrante.
Quando
me perdoavas os erros, falcatruas,
Quando
ficava o cheiro meu na roupa tua,
Quando
o corpo teu roçava-me a pele nua,
Percorrendo-me
naquela insânia crua,
Sentia
teu perfume, que em mim perpetua
E
a poesia prata, cheia lua.
Quando
não havia ninguém mais apaixonado,
Quando
eu bebia do suor por ti derramado,
Quando
sonhando estávamos abraçados,
Quando
me abraçando cercavas-me por todos os lados,
Eu
era tua ilha, teu mundo encantado
E
a poesia fluía, mel de ti emanado.
Um
leão forte, um sonho envolvente,
A
poesia criou vida, era inteligente.
Na
erupção de nossos poros, na inspiração adjacente,
Na
junção de nossos corpos, em nossos ímpetos
carentes.
A
poesia era prata, era lua de enchente,
A
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poesia era doce, era mel fluente.
A
inspiração foi embora, no entanto,
Foi
quando eu perdi o teu acalanto
Quando
das mãos espalmadas fez-se o espanto*
Quando
separados, cada um em seu canto
Comecei
a sentir as saudades, que hoje ainda canto
E
a poesia dor, puro quebranto.
E
eu quis reviver a poesia, entretanto
Descobri
ser obsceno o pensamento que era santo,
Descobri
ser veneno o sentimento que era manto,
Descobri
ser ilusão o mundo que era encanto,
Descobri
perdida a vida que eu queria tanto
E
a poesia mágoa, puro pranto.
Quis
viver a poesia mais uma vez,
Mas
foi embora minha lucidez
Quando
vi que nossa paixão era insensatez,
Que
nossos beijos eram toxidez,
Que
nossos abraços eram sordidez
E
a poesia frágil, pura morbidez.
Quis
recolocar na poesia a vividez
Mas
bati de frente na tua frigidez
Quando
vi que tua realeza era de princêz,
Que
tu foras maquilagem, talvez,
Que
era de brinquedo a tua tez
E
a poesia frio, pura nudez.
Intertextualidade;
alusão ao Soneto da Separação, de Vinícius de
Morais.
Quis
rever a poesia na amplitude do céu
E
não a revi na transparência de teu véu.
Quis
ter-te de novo em nosso anel
E
percebi que nossa aliança era de papel.
Quis
sonhar bebendo de teu mel
E
a poesia era amarga, puro fel.
Quis
redescobrir a poesia em teus pensamentos,
Como
quando tínhamos os mesmos intentos,
Como
quando partilhávamos os mesmos sentimentos.
Mas
descobri que tudo era passamento
Na
dor da separação em meu sofrimento
E
a poesia dispersa, folha ao vento.
Quis
renascer aqueles instantes
Onde
a felicidade era constante,
Onde
eu passeava a tua montante.
Mas
vi ir embora o teu semblante
Mas
vi chegar o fogo, inferno de Dante*
E
a poesia falsidade, verdadeira tratante.
Ela
era fel, era frágil, era fria,
Era
escuridão no céu sem a luz do dia.
Quis
renascer em mim a poesia
Mas
sem ti eu era a criança que não sorria.
Há
tempos fazer esta poesia eu queria
Mas
ensinaste-me que há tempos de se viver poesia.
Há
tempos...
Intertextualidade;
alusão ao inferno descrito por Dante Alighieri em sua
obra A Divina Comédia.
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